1584 - NOITE ESTRELADA

1584 noite estrelada
 
 
 
NOITE ESTRELADA
- Por Huberto Rohden -
 
Contemplei ao longe um grande ideal - e lá se foi o sossego de minha alma.
Nunca mais estarei quite comigo mesmo...
Sempre atuará a gravitação do espírito...
Entrou-me no sangue da alma uma angústia cruel...
Sempre oscilará, irrequieta, a agulha magnética...
Sempre clamará o heliotropismo do meu ser...
Lavra-me no íntimo um incêndio voraz...
Feliz do homem profano - satisfeito consigo e com todo o mundo - esse infeliz!
Infeliz do iniciado - insatisfeito consigo mesmo - esse feliz!...
Aquele não conhece esfinges em pleno deserto - não conhece problemas...
Sorri-lhe o dia perene do seu plácido viver...
Mas o homem que pensa e ama - vive num ambiente de estranha agitação...
A sua noite é noite estrelada, sim - mas a treva é profunda e as estrelas altíssimas...
Todo pensar nos faz inquietos - todo querer nos abre Saaras imensos.
Todo viver oscila entre o Getsêmani e o Gólgota...
Todo amor agoniza entre os braços da cruz...
Entretanto, melhor é o inteligente sofrer - que o estúpido gozar...
Prefiro gemer numa noite estrelada - a sorrir num dia sem mistérios.
Prefiro sentir o que adivinho - a dizer o que ignoro...
Prefiro escutar a filosofia do silêncio fecundo - a ouvir a sociologia do ruído estéril...
Mais belos são os mundos que, incertos, entrevejo - que a Terra que meridianamente enxergo...
Creio mais no muito que ignoro - do que no pouco que sei...
Mais firme é a minha fé num universo ideal - do que nesse cosmos real...
Mais me aliciam ignotos horizontes - do que realidades palpáveis...
Bandeirante do além - não repousa meu espírito na querência do aquém...
Não me interessa o que sei - seduz-me o que ignoro...
Mesquinho é o passado, trivial o presente – como me encanta o futuro!
Contemplei ao longe um grande ideal - e lá se foi o sossego de minha alma!
Nunca mais terei sossego de mim mesmo...
Nunca mais estarei quite comigo...
Devedor insolvente - enquanto viver...
Empolgou-me a noite estrelada do Infinito...
Rebelaram-se as potências dormentes...
Impossível um tratado de paz...
Adoro, ó noite estrelada, seus astros longínquos!
Por eles vivo... luto... sofro... feliz.
 
(Texto extraído do livro "De Alma Para Alma" - do genial filósofo brasileiro Huberto Rohden – Editora Martin Claret.)
 
- Nota de Wagner Borges:
Ver a coluna dedicada a Huberto Rohden em nosso site, nesse link: http://www.ippb.org.br/textos/textos-de-huberto-rohden

Texto <1584><21/09/2017>

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