ELES VIVEM - III

O espírito é eterno, os seus sentimentos transcendem a barreira da morte junto com ele. Ou melhor dizendo, dentro dele.

O Amor é um estado de consciência, não se acha nem se compra, não se explica nem se prende ao tempo, apenas se sente.

Na Terra ou no Espaço, é o Amor que vale a pena!

Dentro ou fora do corpo, é o que faz a magia da vida acontecer.

E é Ele que ainda agora me incumbiu de escrever o seguinte:

- Nada morre!

O corpo físico é valioso para o aprimoramento do espírito acoplado nele pelo tempo preciso da existência do que precisa aprender.

Porém o seu período de manifestação é circunscrito pelo espaço/tempo.

Independente da causa de seu momento final, o corpo é semelhante à roupa que alguém tira e deixa jogada. É vestimenta do espírito!

O corpo fenece, o espírito floresce!

À terra o que é da terra, às estrelas o que sempre foi delas.

O corpo pode tombar, mas quem será capaz de derrubar uma estrela?

A cova onde o corpo volta aos elementos da terra pode ser funda, mas jamais poderá abrigar o espírito imperecível e viajante cósmico por natureza.

Não, não é no cemitério que moram as estrelas!

Não é nas ossadas que se encontra o brilho imperecível.

Nem na tristeza de quem ficou sentindo a falta da estrelinha.

Poderá o luto temporário de alguém reter o eterno?

Jesus, o amoroso Rabi, ensinou:

"Na Casa do Pai há muitas moradas!"

E não parece que isso seja em algum cemitério ou crematório.

Krishna, o senhor dos olhos de lótus e mestre do dharma**, ensinou:

"O espírito não morre, é imperecível. Apenas entra e sai dos corpos perecíveis. O fogo não pode queimá-lo nem a água molhá-lo.

Que arma poderá destruir o eterno?"

Pois é, não parece que esse princípio eterno possa ser enterrado ou cremado.

E o Buda, mestre do equilíbrio e da serenidade, disse:

"Abaixo da iluminação, só há dor."

E que iluminação poderá ocorrer com o corpo vazio de consciência?

O sábio Cuang-Tzú arrematou bem essa questão:

"Por trás de todo rosto sempre há uma caveira."

Pois é a caveira que beijará o chão, enquanto o espírito beijará o céu.

Mesmo na possibilidade de um espírito ficar apegado ou zanzando por aí, pelo menos continuará vivo! E em algum momento melhorará e poderá seguir...

Porém o corpo continuará retido na terra até sua dissolução se completar e ele voltar a fazer parte da energia planetária, seu lugar de origem.

No entanto, aquele brilho que se via nos olhos de alguém, e o Amor que morava em seu coração não têm origem na Terra. Nem suas risadas.

Que cadáver poderá contar uma piada criativa?

Talvez esse seja mais um motivo da tristeza de quem perdeu alguém:

Para ouvir suas piadas e suas risadas, agora só no céu.

Ou seja, se quiser rir junto com o espírito, terá que sair do corpo e ir até lá!

Luto e ilusão, é no cemitério junto com o cadáver.

Piadas, abraços, risadas e amor, é no Astral junto com o espírito que se mandou. Ou dentro do coração, que também tem um céu por onde se voa.

Para quem voa, seja fora do corpo no Astral, ou pelo céu do coração, fica claro um coisa: discernimento espiritual é fundamental para superar uma perda.

E perder alguém dói muito. Contudo, projetar os sentimentos em direção ao cadáver e pensar que o ser amado está enterrado não aplaca a dor de ninguém.

Apegar-se aos objetos de quem partiu também não alivia o coração.

E depositar flores no túmulo não alegra defunto algum.

Melhor seria comprar flores e oferecer para alguém vivo e sair contente de ter feito alguém contente.

E não estou dizendo aqui que ninguém não deveria sentir falta daqueles que partiram na jornada astral para além da carne. Só estou dizendo que dói mais quando só há falta no sentido físico e quando falta discernimento para administrar a perda e voltar a viver.

É muito estranho ver alguém de luto no cemitério e o sol brilhando em cima.

E saber que a pessoa não está vendo brilho algum e se lamentando.

Como também é estranho alguém lamentar a perda de alguém, e esse mesmo alguém estar do lado dela flutuando com seu corpo espiritual radiante e presente junto a ela numa visita extrafísica.

Que estranho, lamenta-se pela perda, mas não lamenta a cegueira interdimensional. Visita-se o cadáver no cemitério, mas não é capaz de visitar o espírito algures...

Manda limpar o capim em volta do túmulo, mas não limpa a dor do luto em seu coração nem aprecia a vida que está em torno.

Que estranho é esse hábito de projetar os sentimentos para o lugar onde o cadáver está enterrado. E depois muita gente diz que estranho é viajar para fora do corpo e visitar o mundo espiritual diretamente.

Visitar o túmulo frio e sem consciência alguma parece normal, mas visitar a consciência extrafísica viva onde ela mora no Astral parece coisa de louco.

E eu fico pensando: quem está louco mesmo?

Aqueles que esqueceram que cadáver algum jamais contará piadas?

Ou aqueles que viajam para fora do corpo e escutam piadas fantásticas de pessoas vivas além da carne, além de abraçá-las e rirem juntos?

Concluo esses escritos com uma mensagem que recebi há alguns anos atrás do espírito Vidigal, um dos mentores da Cia. do Amor*:

"Aproveite a oportunidade de trabalhar espiritualmente da maneira certa enquanto pode, pois a estrada pode ser curta e, a qualquer momento, a ´Dona Morte´ pode vir lhe buscar. Quando isso acontecer, e quem sabe a data certa é só o Carma, é bom que você tenha estampado no seu peito astral a palavra ´Amor´ e tenha carimbado no seu chacra frontal o selo do controle de qualidade astral dizendo o seguinte: Esse é dos Bons."

- Vidigal –
Cia. Do Amor - A Turma dos Poetas em Flor.

PS: Penso que quem ler essas linhas e não me conhece, poderá pensar:

"Esse cara está sendo muito duro!"

Nada disso. É por amor que escrevi tudo isso. E o meu coração está brilhando muito, principalmente porque sei que não estou "dando os pêsames" para quem perdeu alguém querido. Pelo contrário, estou tentando ajudar essas pessoas chamando para um raciocínio criativo e para voltar a viver.

Não é aumentando o luto de alguém ou compactuando com sua tristeza que estarei ajudando, mas sim fazendo aquilo que sei de melhor: falar de espiritualidade de forma limpa e aberta.

Se alguém se sente incomodado por um espiritualista falar de vida após a morte, coisa que é o seu natural, então que continue dando os pêsames e visitando cadáveres e sofrendo muito... Até a próxima vez em que outro partir, para repetir tudo novamente. Enquanto isso, o sol continuará brilhando e a vida seguindo o seu curso natural, aqui na Terra e em outros planos de manifestação.

Os corpos continuarão tombando ao fim de seu ciclo vital, e os espíritos continuarão bem vivos e voando na imensidão sideral e nos planos extrafísicos... E novas piadas serão criadas, pois eles estarão sempre vivos.

O motivo de escrever algo assim não é por dureza. É que o Amor me pediu para dizer que ninguém morre mesmo, que os caras estão muito vivos.

O motivo é apenas esse: ELES VIVEM!

(Esses escritos são dedicados às pessoas que perderam entes queridos, mas que não perderam a capacidade de amar nem de se expressar com dignidade diante das provas da vida, e que voltaram a viver. ELAS TAMBÉM VIVEM!)

- Wagner Borges (ser humano com qualidades e defeitos, muitas vezes "duro", porque gosta de namorar, que tem muito o que aprender nesse mundão de Deus, mas que já sabe que dentro da cova não mora ninguém, e que estranho mesmo é quando alguém que estuda temas espirituais fica passado porque alguém querido foi morar no "andar de cima" e não se conforma com isso. Parece até que não sabe que ELES VIVEM!)


São Paulo, 19 de agosto de 2003.

Enquanto digitava essas linhas, lembrei-me de uma reflexão de Sry Aurobindo que tem grande correspondência com o tema aqui apresentado. Trata-se de um texto que já foi postado pelo site há uns três anos atrás, mas que sempre inspira pela clareza com que ele alinhavou suas idéias sobre a imortalidade da consciência, essa passageira do Eterno.
Segue o texto na seqüência.
continua

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