A LIÇÃO DO ARJUNA

- Por Frank -


Domingo. O dia está claro e não há sinais de chuva.

O calor me lembra o Brasil, enquanto sento na grama do parque e abro o jornal nessa manhã londrina tão estranha sem a habitual e eterna garoa.

Relaxado, olho a manchete do jornal e mergulho no mundo onde crianças são mortas por terroristas e tudo parece estar mergulhado no caos. Ao meu redor, a vida irradia o contrário nas imagens das crianças brincando no parque e nos adultos correndo ou se abraçando, como se não existisse mundo além do verde que se estende até onde a vista pode alcançar.

Continuo imerso naquele oceano de imagens trágicas do jornal. Meus olhos navegam por aquele mar turbulento de letrinhas que provocam um maremoto no meu coração.

Enquanto vejo no jornal tanta morte, lembro-me de Krishna e de Arjuna, no Baghavad Gita, onde Krishna explica ao seu arqueiro e discípulo que ninguém nasce ou morre, apenas entra e sai dos corpos perecíveis. E mesmo acreditando nisso, a lágrima ainda assim escorre pelo meu rosto furtivamente.

Decido, então, deixar o jornal de lado, pois não quero entrar em sintonia com a tristeza coletiva por causa do que ocorreu na Rússia, já há muita tristeza no ar.

Então resolvo calar a mente inquisitória e o coração chorão, e mergulho no silêncio de uma meditação. É difícil calar a mente, que é porta-voz de um senso de revolta de quem não entende por que flores são esmagadas, mas consigo domá-la e fico ali quietinho no silêncio, abraçando o nada que esconde o tudo.

Sinto tranqüilidade, e a confusão vai dando lugar àquela lucidez meditativa tão estranha e tão familiar (parece que eu nunca vou ficar acostumado com ela).

Imagens vêm à mente, e sem julgá-las, vejo novamente Krishna conversando com um Arjuna hesitante em ir para a guerra. Ouço Krishna explicando que há tempo para tudo, inclusive tempo de guerrear. Ao mesmo tempo, lembro-me do dia em que fiquei chocado quando um amigo me disse que se éramos incapazes de ferir alguém nessa vida, é porque em muitas outras vidas já provamos o sabor da espada na mão e o gosto amargo do sangue na boca.

Abro os olhos e fico refletindo sobre isso, sabendo nos apressamos em julgar tudo aquilo que não conseguimos entender. Se não conseguimos o que pedimos, é porque Deus não nos escuta. Se uma criança morre de fome na África, é porque Deus não existe. Seguimos atribuindo a Deus uma responsabilidade e uma ação que dependem apenas de nós para nunca mais ocorrer. Seguimos pedindo explicações para cada folha caída, esquecendo que além das nossas crenças, a natureza segue seu ciclo.

O mundo segue rodando, como sempre fez antes de você ou eu estarmos por aqui, e parece, pelo menos para mim, que quanto mais exigimos explicações, mas confusos ficamos. Sei que para cada coisa que consigo compreender, há outras milhares que preciso aprender a deixar no ar, até a hora certa, quando a vida vai fazer questão de me explicar.

Sei, também, que nada mudou ou mudará debaixo do sol, mas o que se passa no nosso coração se transforma o tempo inteiro.

Tragédias ocorrem, feridas se abrem e no meio de tudo isso estamos nós, seres humanos, aprendendo e evoluindo. Cada um com a sua história, cada um com o seu ponto de vista, cada um com a sua lição.

Cada um com o seu plano de vôo, que exige que aprendamos a voar tanto em dia claros como em noites escuras.

Sei que não há justificativa na tragédia. Sei que não há explicação que sacie o meu coração ou o seu, ansiosos por um motivo. Mas, ali no cantinho daquele parque refletindo sobre tudo isso, tentei acender a minha luzinha, para não contribuir com a escuridão.

Nada parece ser mesmo absoluto. Amor e ódio, vida e morte, compreensão e confusão, são tudo parte do mesmo todo que resulta em experiência. Talvez seja por isso que Krishna diz a Arjuna que ele aceite o seu tempo de guerra.

Talvez porque cada um, a seu tempo, vai aprender a sua lição e seguir para outro ciclo onde o “caminho da dor” não parece ser mais a única opção.

Nesses tempos de tragédia, deixo a pergunta sem resposta.

Acho que estou começando a compreender que quem julga não enxerga.

Quem não enxerga, ignora que é justamente quando o mundo está escuro, que temos que acender a nossa luz.



- Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores, que atualmente mora em Londres. Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos.
Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista on line de nosso site e em nossa seção de textos projetivos e espiritualistas, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br

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