O CAMINHO DA PRÁTICA

Certas coisas só passam da fé para a certeza pelo Caminho da Prática.
Lembro-me bem da primeira vez em que tive uma experiência fora do corpo, e assustado fiquei olhando com rabo de olho aquele outro na cama, que parecia, mas não era o meu verdadeiro “eu”.
Recordo-me melhor ainda do dia em que fechei os olhos e vi os meus centros de energia girando pelo meu corpo, e em multicores esses tais chacras passaram de coisa de místico para coisa tão real quanto meus cabelos, tão real quanto aquela energia em volta das pessoas no ponto do ônibus, no banco ou na praça. Energia que parecia ter vida própria e mudava de cor, à medida que um sorria ou outro chorava.
Tudo isso pelo Caminho da Prática. Caminho esse que assusta até quem é mais veterano de jornada e lhe prova na vigília que algumas coisas são realmente
verdades, enquanto outras são uma furada. Foi por esse Caminho que novamente descobri outra certeza, se bem que essa eu preferia que continuasse apenas sendo crença.
Estávamos indo, minha esposa e eu, para o supermercado, quando senti uma sensação de ódio pelo ar. Era como se fosse uma brisa que envolvia a gente e tocava nas pessoas que estavam ao nosso redor. Não havia nada de errado com a gente para que eu sentisse aquilo a nossa volta. O nosso dia estava bem bacana e não havia qualquer razão para que essa sensação ruim nos atingisse, e embora minha esposa não tivesse ainda percebido, a sensação estava nítida no ar.
Ao mesmo tempo em que sentia isso, percebi por intuição uma outra onda que parecia querer me alertar e sussurrava em meu ouvido: “cuidado!”.
A essa altura, não mais escutava minha esposa, que ainda parecia não ter notado, e só passei a observar que por onde quer que passássemos as pessoas pareciam estar alteradas e prontas para brigar e reagir à primeira provocação.
A sensação durou por toda a jornada para o mercado até a volta para casa, e eu pisando em ovos, mantendo a atenção redobrada para não entrar em atrito com ninguém, pois sabia que não ia resultar em coisa boa. Sei lá como, apenas sabia que sabia.
Mais tarde, já em casa, comentei com a Auri sobre o que tinha sentido, achando que tinha viajado na maionese e estávamos salvos. Disse-lhe:
“O que houve é que senti que alguma coisa ruim estava prestes a ocorrer e nos atingir. Não comentei nada para não lhe assustar, mas desde que saímos de casa tinha a impressão de que o mundo ao meu redor estava me alertando para tomar cuidado com algo. Não sei muito sobre sincronicidade ou todas essas idéias, mas sei quando a intuição vira alerta, e pareceu que eu estava lendo o mundo me pedindo para manter a calma, porque algo iria tentar nos abalar, mas graças a Deus não era mesmo nada.”
Já era tarde da noite e fomos meditar juntos. Sons de mantras, boa sintonia, sono vindo e a gente deita; quando quase-dormindo, ouvimos o som do celular, e era uma mensagem.
Ela levanta, olha o celular e parece estar alterada. Peço que ela leia e escuto atento enquanto as palavras vão ferindo meu coração como navalhadas na alma, quebrando a harmonia do nosso leito ainda brilhando ao som dos mantras.
Um mal-entendido bobo, uma amizade que por cobranças abusivas passaram de respeito para ameaça; uma vingança boba em palavras enviadas pelo telefone, que começaram a fazer estrago desde cedo, com o único intuito de abalar, de desestabilizar quem está com a consciência limpa e em paz.
Perdemos o sono e o sossego, começando a discutir sobre amizades que se tornam grandes problemas e se vale mesmo à pena tentar ajudar as pessoas ao nosso redor. Tento acalmá-la, mas estou alterado, e decido então tentar relaxar, me concentrar na minha respiração, num mantra ou numa visualização que me acalme, mas é tarde demais e já mudei de faixa; entrei na sintonia distorcida e meu “rádio mental” começa a captar sons, gritos, ecos e ameaças, tudo tão alto que parecem estar ecoando dentro do quarto. Vozes que são reais demais para serem apenas coisa da cabeça.
Sempre soube que uma dia minha clariaudiência* despertaria, mas não dessa forma, não captando tanta coisa ruim enviada. Culpo a mente, pelo dom que não pedi e esqueço que tudo é sintonia; pois se estou captando ondas AM, basta mudar para FM e ouvir o que está tocando por lá. É o que faço. Demoro, mas consigo dominar o dial da minha rádio, e vou sintonizando, acalmando, respirando, visualizando e viajando para o mundo de dentro que abre a porta para o mundo de fora.
No dia seguinte, voltamos a conversar sobre o assunto e ficamos assustados com o fato de que uma simples mensagem tivera tanto poder e em como entramos no clima de ódio, mesmo tendo sido avisados. Palavras de ódio ou de amor têm mesmo o poder de criar ou destruir. E por mais que não tenha sido uma lição tão agradável assim de se absorver, penso novamente nesse Caminho da Prática e em como ele transforma teoria em ação, fé em certeza. E é por esse Caminho que descubro que tão real quanto os chacras girando, aura dilatando, e estar fora do corpo me olhando, é quando você descobre que o mundo realmente fala, que sintonia é tudo, e que como diz a galera mais veterana de casa: “Assediador que vive aqui nesse mundo é bem pior do que os que morreram e vivem do lado de lá”.


- Frank -
Londres, 03 de fevereiro de 2004.

* Clariaudiência: É a capacidade de escutar sons e manifestações parapsíquicas.

Imprimir Email