VOANDO

- Por Frank - Sou voador de asas quebradas, por isso, às vezes, vôo torto e, quando consigo tocar o Céu, volto caindo para a Terra, mas não desisto das estrelas, nem da lua, pois voar é meu destino. Quem mandou Deus me fazer homem em vez de passarinho? Já tivemos asas antes, mas fomos expulsos do paraíso. Quem mandou ter comido o fruto proibido?
Seguir a consciência e o coração tinha um preço e estávamos dispostos a pagar. Afinal o Éden tinha tudo o que queríamos, mas estava se tornando meio chato, meio sem novidades, meio sem desafios e, acima de tudo, sem graça alguma. Queríamos aprender, mas também dar risada. Queríamos amar, mas também quebrar a cara; só para depois se ajeitar, juntar os cacos, reconstruir e fazer todas essas coisas que fazem a gente crescer. Crescimento com erros é um caminho mais longo, mas quem pode dizer o que é certo o tempo inteiro? Às vezes, é preciso um dilúvio para limpar tudo e embarcar numa Arca de Noé, para reconstruir o nosso mundo e andar com as próprias pernas. Às vezes, trilhamos o caminho de Abraão e oferecemos sacrifícios, sem necessidade, para depois acordarmos e percebermos que não precisamos comer o pão que o diabo amassou para falar com o divino, que tanto está lá em cima, quanto embaixo, do lado de dentro de cada um de nós. Caminho difícil, mas não impossível e, mesmo cruzando um mar em busca de nossa terra prometida, não podemos esquecer as lições dos iniciados do antigo Egito, da velha Índia e da China, e dos tambores celtas. Pois, embora o presente seja importante, as lições e ensinamentos do passado formam um alicerce para a ponte que precisamos atravessar rumo ao futuro. Vivenciamos nossa idade das trevas, enfrentamos dragões com espadas de lata e escudos de açúcar; cruzamos mares em barcos de papel; colonizamos novos sonhos; críamos novos países; fizemos guerras por canudos e guardanapos e aqui estamos nós, mais fortes, sábios e ainda aprendizes. Continuamos errando e nos ferrando, mas dando muita risada nesse processo de aprender e vivenciar o caminho do equilíbrio, rumo ao tudo. Para alguns, um ciclo se encerra; para outros, esse mesmo ciclo recomeça - e é difícil recomeçar -, mas, quando se tem a certeza de que vale a pena, todo esforço vira fruto... E foram tantos frutos e presentes, que se torna impossível não agradecer aos céus, todos os dias, pela oportunidade de estarmos aqui. Anos, séculos e ciclos se passaram em um piscar de olhos, numa fração de segundo. Quando olho para trás e me lembro de tudo que ocorreu há dez anos - ou há dez mil anos -, parece que foi ontem, mas as lições e experiências ficarão por toda a eternidade. Novos amigos e novos aprendizados todos os dias... Novos amores e amores renovados. Desculpas e tapas na cara; beijos no rosto e caras viradas, mas, perdoar o quê? Já dizia Gilberto Gil: "Não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão". Quantos sonhos realizados e quantos planos desfeitos. Tanta coisa que eu quero e tão pouca coisa preciso. A vida, sábia, vai filtrando meus pedidos e mudando todo o curso do rio, exatamente como dizia John Lennon: "A vida é o que acontece com você, enquanto você está ocupado fazendo planos". A Terra tem dessas coisas, mas continuo voador... Voando além do céu virtual, pelo céu do coração. Voando em letrinhas e pelo teto, como se fosse um foguete, quando durmo. Vôo torto e engraçado. Tudo que inicialmente parece trágico, no final, realmente vira piada, conto, crônica ou simplesmente some com o vento... Outro ano se passou no calendário ocidental. Embora a data seja fictícia, o sentimento de renovação é real e desejo a todos vocês que as sete ondinhas puladas se transformem em sete novos desafios superados, em sete motivos para rir e agradecer aos céus pelo milagre de estarmos vivos. Afinal, todos nós somos voadores e voar junto foi apenas um jeito engraçado da vida nos mostrar que éramos, sempre seremos e SOMOS TODOS UM SÓ! São Paulo, 02 de janeiro de 2008.

- Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco de Oliveira, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores. Depois de vários anos morando em Londres, ele voltou a residir em São Paulo, em fevereiro de 2005. Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos. Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista online de nosso site e em nossa seção de textos periódicos, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br – Outros textos podem ser acessados diretamente em seu blog na Internet: http://cronicasdofrank.blogspot.com.

Imprimir Email