O DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO - (Folhas de Outono) - Parte II

Refugiar-se no materialismo puro, ou no espiritualismo puro, aumenta a colisão entre os dois “mundos” e as conseqüências são as doenças psíquicas e mesmo as enfermidades que são físicas. Há pessoas nos extremos e há pessoas que procuram um ponto de equilíbrio para a sua consciência. Esse ponto de equilíbrio é encontrado pela experiência de vida quando há discernimento, como afirma o Apostolo Paulo em Cor.I, Cap. 2; vs. 11, 14, 15 e 16.
Assim, com pelo menos três níveis para a consciência humana, reconhecida por Paulo, mais a diversidade cultural de berço, escolaridade e cultura psico-religiosa, como se poderia esperar um perfeito entendimento em qualquer tipo de escalão ou hierarquia em sociedades onde as pessoas são escolhidas por critérios políticos, ou de empatia com um grupo. Como encontrar perfeita harmonia em pessoas que professam as mesmas crenças, mas que divergem nas bases do caráter? Daí a utilidade relativa dos grupos de disciplina religiosa onde há divergências até de personalidade entre seus membros.
Conhecemos pessoas que conseguiram sair de problemas sérios devidos a um materialismo animal extremo, mudando a atitude, passando para um espiritualismo no outro extremo, salvando-se objetivamente, da prisão, de doenças e miséria física e moral, mas sem encontrar um ponto de equilíbrio na esfera intelectual com esse novo tipo de enfoque. Mudou o caráter?
Uma visão unilateral, religiosa e dogmática, impediu que muitos procurassem entender os conceitos científicos. No começo da era moderna os conservadores da doutrina cristã dogmatizada julgaram ser possível bloquear a ordem cósmica, tornando proscritos os progressos da ciência.
Mesmo as Igrejas atuais abrigaram, em época recente, cientistas que se mostraram confusos em suas conceituações, deixando claro um conflito entre suas tendências místicas e os conceitos desenvolvidos intelectualmente, devidos aos novos conhecimentos científicos. De outro lado fica evidente o esforço de místicos e religiosos que falam uma linguagem espiritualista e fundamentalista, mas, agem de modo a mostrar uma atitude materialista e pecuniária. Resulta desse conflito maior, por ser introspectivo, um estresse que é expresso com os cabelos brancos precoces e ou coração fraco, quando não há problemas de ordem mental ou de personalidade.
Em todos os casos, a psique (1) de cada um é a responsável pelos alicerces do tipo de conceituação que cada um possa ter a respeito do Mundo, ou do “Reino dos Céus”. Assim, se a religiosidade é uma necessidade metafísica do homem, ela tem a ver com a intuição e os sentimentos que determinam a fé e a sua busca da espiritualidade através da mística.
Já as religiões, regidas por normas, princípios, dogmas, rituais e mais os regimentos internos das Igrejas, têm a ver com a necessidade de manter um grupo unido em torno de uma crença, como comunidade, onde idealmente haja ajuda mutua para sobreviver. É assim que as minorias raciais encontram refúgio em comunidades religiosas, adotando suas crenças. Isto de certa forma substitui a proteção que as sociedades tribais davam ao homem primitivo. Temos também a considerar a religião como instrumento de poder.
Em todos os casos, os conceitos desenvolvidos pela psique, que é de ação subjetiva, são baseados em suposições a respeito de coisas do mundo subjetivo, como também muitos conceitos são baseados na percepção subjetiva e relativa dos fatos objetivos. Está lógico que a parcela da população que é constituída pelo homem natural é tangida pela eloqüência do homem carnal que, tendo consciência do desenvolvimento psíquico, conhece também a condição material que é objetiva e de mais fácil entendimento. Por reflexo de sua própria condição humana, sugerem que Deus, mesmo sendo Espírito, tenha desejos, vontades e necessidades como pregam muitos teólogos.
Normas, princípios, dogmas e rituais, uma vez estabelecidos como verdadeiros em uma religião, cristalizam-se. Servem para uma época, para um século, ou para um milênio, mas sabemos das conseqüências da estagnação em qualquer meio biológico. Todos aqueles que pensam, buscam sair do conflito que há entre suas tendências místicas e os conhecimentos intelectuais. Muitos, como os Martinistas (2), tentam encontrar um meio termo, um ponto de equilíbrio, para aceitar a essência do Cristianismo que, também pode ser encontrada como essência em outras linhas do pensamento filosófico, sempre convertido em prática religiosa devido aos seus conceitos de moral e de ética.
(Continua)

- Prof. Alberto Dias -
Atibaia, 30 de junho de 2003.

1. Psique (do grego): Alma.
2. Martinistas: Grupo de ocultistas pertencentes à Ordem Martinista, fundada na França em fins do século 19.

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