MÃOS, SERVIDORAS DE DEUS

João caminha lentamente
Pelo centro da cidade.
Os prédios gigantescos não
Conversam com ele.
São frios e duros.
Mas ele ajudou a construí-los.
Há muitas décadas.
Agora, já idoso e desempregado,
Andando atrás de bicos,
O pobre homem sente levemente
Uma onda de tristeza em seu peito.
De manhã, o motorista do ônibus
Corre demais e a pobre velha cai.
João a ajuda.
Com suas mãos calejadas
De tanto mexer em concreto.
O vizinho doente não pode tomar banho.
João, humildemente, o ajuda.
A menina espancada pelo gigolô chora
Sozinha na rua. João a consola e lhe diz
Para olhar para o Sol e sorrir.
Aquele menino que passa agora
De carro importado e nem liga para João
É o mesmo que o pobre homem tirou-lhe
Uma arma da mão, quando se preparava
Para cometer seu primeiro assalto.
Tantas passagens, tantos rostos, tantas lágrimas...
Agora João está sentado em um banco de praça.
Está anoitecendo e sua respiração começa a ficar lenta,
Pesada e ritmada...
As estrelas parecem estar perto de sua face.
Seu corpo parece começar a ficar cada vez
Mais leve e suave...
Lembranças de sua infância,
Dos amigos, das brincadeiras...
Dos pais que já foram embora há décadas...
A primeira namorada...
A esposa querida que morreu por falta
De atendimento médico...
Ainda se levanta para pegar uma rosa
Do jardim do parque.
E a coloca junto ao coração.
Senta-se e um barulho estranho,
Em seu coração, canta suavemente.
Parece ter sido tirado de uma roupa pesada.
De repente uma mão cheirando a um perfume divinal
Acaricia sua face tão desgastada pelo tempo.
Observa e vê seu corpo ali,
No banco do parque.
Mas como vê a si próprio?
Uma voz sutil lhe diz:
“Vamos, amigo, venha usar as
Mãos que tanto trabalharam em prol dos outros,
Em um plano do Universo
Onde impera o Amor Verdadeiro.
Seu tempo na Terra acabou.
Vamos...”
Entrando numa espécie de sonolência gostosa,
Ele cai nos braços desse belo ser
Que lhe falava com tanto carinho.
Um cachorro vira-lata, faminto e cheio de doenças,
Aproxima-se e lambe a mão estirada
No pequeno banco do parque.
A mão daquele corpo que,
Por tantas décadas de existência física,
Ajudou a muitos e a si próprio.
A noite chega com todo seu vigor e beleza,
Levando aquela história para todos
Aqueles que quiserem trabalhar com as mãos do Amor.

- Washington da Silva -

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