LAVAI OS PÉS UNS AOS OUTROS - por Huberto Rohden

- Por Huberto Rohden -


A tocante cena do lava-pés encerra o mais profundo mistério da verdadeira redenção do homem. O seu sentido último vai muito além da ética da humildade que estamos habituados a ouvir nos sermões comuns das igrejas.

É a apoteose da redenção pelo querer-servir.

A humanidade está dividida em dois grupos nitidamente distintos: os que querem ser servidos – e os que querem servir. A primeira parte é enorme, a segunda é pequena em quantidade, embora grande em qualidade.

Para que um homem passe da doença crônica do querer-ser-servido para a vigorosa sanidade do querer-servir, é necessário que deixe de ser profano e se torne um homem sacro. No homem profano, devido à sua cegueira, predomina o pequeno ego físico-mental – no homem sacro, graça à sua vidência, triunfa o grande Eu espiritual.

O homem profano se sente bem, importante, poderoso, quando está sentado sobre um trono, dando ordens, e muitos de seus semelhantes jazem ao pé do trono, cumprindo ordens. Nisto é que ele vê força, riqueza grandeza – quando, na realidade, tudo isto é sintoma de fraqueza, pobreza, pequenez.

Quem pode alegremente servir mostra que é forte, rico, pleno, exuberante.

Deus não tem necessidade de receber nada, mas dá tudo porque é inesgotável Plenitude.

Quanto mais o homem se aproxima da Divindade doadora, tanto mais gosta de dar e servir e tanto menos se interessa por receber e ser servido.

Em última análise, toda a redenção consiste em que o homem extinga em si todo e qualquer desejo e necessidade de querer-ser-servido e eleve ao máximo a jubilosa vontade de querer-servir; porque aquilo é sinal de egoísmo estreito, ao passo que isto é prova de vasto universalismo e amor. Ora, todo egoísmo é irredenção, como todo amor é centralização unitiva.

No plano do ego personal domina a política de “ter”, e está ausente a filosofia do “ser”. O profano considera reais os objetos que ele tem ou pode ter, e por isso gasta a vida toda a correr atrás desses objetos, que, devido ao seu inerente pendor centrífugo, fogem do homem profano, por ser negativo. Na verdade, porém, nenhum objeto tem realidade intrínseca em si mesmo; todos eles são apenas realizados, isto é, possuem realidade extrínseca, vinda de fora deles. Nenhum objeto tem realidade original, autônoma, mas apenas um reflexo no espelho, heterônomo. Ora, ninguém pode agarrar e possuir solidamente um reflexo no espelho.

É absolutamente impossível que eu tenha hoje o que não tive ontem e não terei amanhã. Um “ter” entre dois “não-teres” é intrinsecamente impossível, porque contraditório em termos. Só tenho de fato o que posso ter para sempre. Esse “ter-para-sempre” porém, não faz parte dos objetos quantitativos, dominados pelas ilusórias categorias de tempo e espaço. O único “ter” verdadeiro é o “ser”. Em última análise, eu só “tenho” o que “sou”; só posso “ter” o meu verdadeiro “ser” com todos os atributos a ele inerentes, como verdade, justiça, amor, benevolência, ou seus contrários.

O profano é um caçador de sombras e sonhador de sonhos; corre sem cessar atrás de grandes e pequenos nadas, como se fossem algo, e, enquanto não se curar dessa estranha alucinação, não será liberto da sua velha escravidão, porque só a verdade é que é libertadora.

É esta ilusão a última razão por que o profano tem a irresistível necessidade de receber e de ser servido, porque isto dá uma força ilusória à sua fraqueza real, assim como álcool, cocaína, maconha e outros estimulantes e entorpecentes geram a sensação de uma força que, de fato, não existe nesses indivíduos viciados. Todo profano é um viciado, porque sedento e ébrio de objetos. Querer receber e ser servido é vício. Só a experiência da verdade é que cura o homem dessa doença crônica e aguda e lhe dá vigorosa saúde.

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Quando Jesus ajoelhou aos pés de seus discípulos para lavá-los e enxugar com uma toalha, prestou-lhes, segundo a opinião humana, serviço de escravo. No Oriente, onde se usam, geralmente, sandálias em vez de sapatos fechados, o viandante entra em casa com os pés cobertos de pó; imediatamente, um dos servos acorre com uma bacia de água, desata o calçado e lava os pés do hóspede, enxugando-os com uma toalha. As sandálias ficam do lado de fora.

Para a humanidade profana dos nossos dias, esse servir é um sinal de inferioridade – assim como o ser-servido é considerado quase universalmente como prova de superioridade. Entre verdadeiros iniciados e homens sacros reina a ordem inversa, porque eles se aproximaram tanto do Servidor Doador Universal que refletem espontaneamente os atributos de mesmo.

“Os príncipes deste mundo – disse Jesus - dominam sobre seus súditos, e por isto são chamados grandes; entre vós, porém, não há de ser assim, mas aquele dentre vós que quiser ser grande seja servidor de todos.”

Aqui está o teste da verdadeira iniciação cósmica; dar e servir em vez de querer receber e ser servido. O verdadeiro iniciado, porém, não vê nesse dar e servir algo como virtude ou heroísmo, mas sim como a expressão da mais simples das verdades e realidades. Ele não é “virtuoso”, no sentido usual do termo, mas é “sábio”, por ser um grande “compreendedor” da suprema verdade.

O Nazareno deu a seus discípulos uma ordem simbólica, mandado que lavassem os pés uns aos outros, quer dizer, que prestassem uns aos outros serviço espontâneo e voluntário, impelidos pelo amor compreensivo, e não compelidos por alguma lei externa.

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Mahatma Gandhi tinha entre seus discípulos uma turma que ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, fazendo limpeza pública nas ruas e até nas privadas. Certo dia, um viajante encontrou um passageiro de trem a lavar a privada; olhou para o desconhecido e disse: “Você, de certo, é da turma de Mahatma Gandhi”. Sorriu-se o servidor espontâneo e continuou a trabalhar. Era de fato da “turma de Gandhi” – porque era Mahatma Gandhi em pessoa, ele, a “grande alma” da Índia.

Para poder servir espontaneamente, sem perigo de criar complexo de heroísmo ou virtuosidade, deve o homem ser, de fato, uma “mahatma”, uma “grande alma”; porque as almas pequenas só querem ser servidas. Quem não é ainda remido da velha escravidão do seu ego não pode entrar na “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”.

Jesus, porém, supõe que seus verdadeiros discípulos sejam grandes almas...

”Lavai os pés uns aos outros”...

“Quem quiser ser grande, seja servidor de todos”...



(Texto extraído do livro “O Triunfo da Vida Sobre a Morte” - Huberto Rohden* – Editora Martin Claret).

* Ver a coluna de Huberto Rohden em nosso site, na seção de Multimídia - www.ippb.org.br

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