MEDITAÇÕES - por um devoto de Sri Ramakrisha

É impossível conceber que o Infinito possa estar preso no corpo humano. Isto não é um assunto de compreensão intelectual, mas de realização. O Atman *, nosso Ser verdadeiro, não está realmente preso. Segundo a psicologia hindu, nós temos vários corpos: o denso, o sutil e outro mais sutil ainda que se chama o corpo causal ou espiritual. É neste último que se experimenta a chamada comunhão mística. Ainda que o corpo mental e o corpo denso reflitam algo dessa comunhão, este reflexo é muito inferior. No prazer físico, o reflexo é muito turvo e instável. Algo mais claro e mais duradouro é o gozo intelectual; e muito acima deste está a beatitude espiritual.
O Atman não é infinito no mesmo sentido que é o espaço. Se se atribui infinitude é porque, sendo absolutamente espiritual, escapa a toda medida. Só podemos dizer que é todo inteligência e amor infinito. É como Amor que, assumindo uma forma espiritual, revela-se a seus amantes e lhe dá a gostar da chamada divina comunhão. Logo, tem lugar a completa união ou transformação da alma em Deus. Disse Sri Ramakrishna: “Quando a mente está apegada à consciência do mundo exterior, vê os objetos densos e habita a envoltura física. Quando se dirige ao interior, é como fechar a porta de uma casa e entrar nos quartos privados. Isto é, a mente passa do denso ao sutil, do sutil ao causal até que se submergir ao Absoluto e nada mais se pode dizer sobre isto.”

O amor humano chega a seu verdadeiro objetivo e se glorifica quando se transforma em amor divino. Se não temos um ideal de perfeição, em que terminará o amor humano, que muitas vezes pouco tem de humano? Se trata-se de atração física, cedo ou tarde termina em repulsa, já que as qualidades corpóreas mudam continuamente e duram pouco. Mais duradouro é o afeto quando é causado pelas qualidades do coração, como a ternura, a bondade, a abnegação. Mas, somente quando se espiritualiza, o amor se torna inesgotável como a fonte eterna de onde emana.

O amor divino é absolutamente inefável. Os místicos tiveram que usar como analogia o amor humano para descrevê-lo. Aquele que consegue, vê seu bem-amado dentro e fora de si mesmo. Já não há nada profano para ele. A menor expressão de altruísmo e bondade que veja no mundo exterior faz voar sua mente até Deus. Não ocorre o mesmo com o afeto humano quando é muito intenso? Aquele que está apaixonado, vê a imagem da pessoa querida em todas as partes: nas belas paisagens, no céu, na luz, no mistério da noite... Pena que esta paixão não dura muito tempo, diminui pouco a pouco e por fim, desvanece-se de vez, a menos que um alto ideal venha salvá-lo. Quando em nossa vida aparece o Ideal, não somente salva nosso amor humano, como o purifica, o sublima e lhe dá uma perspectiva infinita.

Como já dissemos, Deus é Ananda, infinita beatitude. E é desejando esta comunhão que os seres humanos, sendo ou não conscientes Dele, buscam riquezas, casam-se, tem filhos, estudam a ciência e as artes, desejam a fama, sacrificam-se pela família e pela pátria. Só uns poucos entre eles, dedicam conscientemente sua vida inteira a realização do Eterno. Sabem que sem esta realização, a vida necessita de sentido, pois tem como final a morte. Disse Sri Ramakrishna: “É o Uno que dá valor ao múltiplo. Sem o Uno, todas as coisas ficam reduzidas a zeros.”


(Extraído do livro "Meditaciones" de um devoto de Sri Ramakrisha; Ed. Kier- Argentina)

* Atman (do sânscrito): Espírito; Essência Divina.

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