O EU APARENTE E O EU REAL - por Sry Aurobindo

- Por Sry Aurobindo -


Este é o teu trabalho e a meta de teu ser e a razão de estares aqui, para tornar-te o divino super-homem e um perfeito receptáculo da Divindade. Tudo o mais que tens que fazer é somente uma preparação para te aprontares, ou uma alegria no caminho, ou um declínio de teu propósito. Mas a meta é esta, e o propósito é este e não no poder do caminho e na alegria do caminho, porém na alegria da meta está a grandeza e o deleite de teu ser. A alegria do caminho é porque aquilo que te está atraindo está também dentro de ti, na tua senda, e o poder para galgar te foi dado, para que possas escalar até tuas próprias culminâncias.

Se tu tens um dever, este é teu dever; se tu perguntas qual será tua meta, que esta seja tua meta; se tu careces de prazer, não existe maior alegria, pois toda outra alegria é fragmentada ou limitada, a alegria de um sonho, ou a alegria de um sono ou a alegria do auto-esquecimento. Mas esta é a alegria de teu ser inteiro.

Porque, se tu dizes que é meu ser, este é teu ser, o Divino, e tudo mais é apenas sua aparência pervertida e fragmentada. Se procuras a Verdade, esta é a Verdade. Coloque-a diante de ti, e em todas as coisas sê fiel a ela.

Disse bem alguém que viu, mas através de um véu, e tomou o véu pela face, que tua meta é a de te tornares tu mesmo; e ele disse bem, outra vez, que é da natureza do homem transcender a si mesmo. Esta é, na verdade, sua natureza, e esta é, na verdade, a meta divina de sua transcendência.

O que é, então, o eu que tu tens de transcender? E o que é o Eu que tu tens de te tornar? Porque é aqui que tu não deverias fazer nenhum erro; pois esse erro, de não te conheceres a ti mesmo, é a fonte de todas as tuas tristezas e a causa de todos os teus tropeços.

Isso que tu tens de transcender, é o eu que tu aparentas ser, e isso é o homem como tu o conheces, o aparente Purusha*. E o que é este homem? Ele é um ser mental, escravizado à vida e à matéria; e quando não está escravizado à vida e à matéria, ele é o escravo de sua mente. Mas essa é uma escravidão grande e pesada, porque ser escravo da mente é ser escravo do falso, do limitado e do aparente.

O Eu que tu tens de te tornar é aquele Eu que tu és dentro, por trás do véu da mente e da vida e da matéria. É ser o espiritual, o divino, o super-homem, o real Purusha. Porque aquilo que está acima do ser mental é o super-homem. E ser o senhor de tua mente, de tua vida e de teu corpo é ser um rei sobre a Natureza, de quem és agora um instrumento, é revelar-se acima dela, que agora te tem sob seus pés. É ser livre, e não o escravo; é ser uno, e não dividido; é ser imortal, e não sombreado pela morte; é ser pleno de luz, e não obscurecido; é ser pleno de bem-aventurança, e não um joguete de tristezas e sofrimentos; é ser exaltado ao poder, e não lançado dentro da fraqueza. É viver no Infinito e possuir o finito. É viver em Deus e ser uno com Ele em seu ser. Tornar-te tu mesmo é ser isso e tudo que flui disso.

Sê livre em ti mesmo e, portanto, livre em tua mente, livre em tua vida e em teu corpo. Porque o Espírito é liberdade.

Sê uno com Deus e com todos os seres; vive em ti mesmo, e não em teu pequeno ego. Porque o Espírito é união.

Sê tu mesmo imortal e não ponhas tua fé na morte; porque a morte não é de ti mesmo, mas de teu corpo. Porque o Espírito é imortalidade.

Ser imortal é ser infinito em ser e consciência e bem-aventurança; porque o Espírito é infinito, e aquilo que é finito vive apenas de sua infinitude.

Estas coisas tu és, portanto tu podes tornar-te todas elas; mas se tu não fores estas coisas, então tu não podes nunca te tornar nelas. O que está dentro de ti, isso somente pode ser revelado em teu ser. Tu aparentas, na verdade, ser diferente, mas por que razão deverias te escravizar às aparências?

Melhor erguer-te, transcender a ti mesmo, tornar-te tu mesmo. Tu és homem, e toda a natureza do homem é tornar-se mais que ele mesmo. Ele era o homem-animal, ele tem que se tornar mais que o animal-homem. Ele é o pensador, o artesão, o que busca a beleza. Ele será mais que o pensador, ele será o vidente do conhecimento, ele será mais que o artesão, ele será o criador e o senhor de sua criação; ele será mais que aquele que busca a beleza, porque desfrutará de toda a beleza e de todo o deleite... No físico, ele procura por esta substância imortal; no vital, ele busca a vida imortal e o infinito poder de seu ser; no mental, e parcialmente em conhecimento, busca a luz total e a completa visão.

Possuir isso é tornar-se o super-homem; porque ele tem que se erguer acima da mente até a super-mente. Chame-a de mente ou Conhecimento, ou de Super-mente; é o poder e a vontade divina e a divina consciência. Pela Super-mente o Espírito viu e criou a si mesmo em mundos; por ela, ele vive neles e governa-os. Por ela, ele é Swarat**, o soberano de si e de tudo.

Viver no Ser Divino e deixar que a consciência e a ventura, a vontade e o conhecimento do Espírito te possuam e brinquem contigo e através de ti, este é o significado.

Esta é a transfiguração de ti mesmo na montanha. É descobrir Deus em ti mesmo e revelá-Lo a ti mesmo em todas as coisas. Vive em seu ser, brilha com sua luz, age com seu poder, regozija-te com sua ventura. Sê esse Fogo e esse Sol e esse Oceano. Sê essa alegria, essa grandeza e essa beleza.


(Texto extraído do excelente livro “Sabedoria de Sry Aurobindo” – Editora Shakti – 1999.)

- Notas:
* Purusha (do sânscrito): o espírito, o princípio sutil que anima a manifestação fenomênica na natureza.
** Swarat (do sânscrito): O Supremo, o Senhor de tudo.

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