POEMA DO PERDÃO - por Amélia Rodrigues

Um sopro renovador alargava-se em todas as direções, atingindo as mais diversas paisagens dos corações.

A palavra era proferida em canto de beleza invulgar, como jamais fora ouvida antes e em qualquer época.

O estranho chegara e arrebatara a multidão. Sua voz coloquial penetrava o âmago dos corações, qual fosse uma benção por todos aguardada.

Cada vez que seus lábios se abriam, as palavras se convertiam em pérolas de superior qualidade, despertando as consciências para as mais altas responsabilidades, para vôos mais altos.

Agora já o conheciam como Messias.
 
Agitava-se a massa amorfa ao fermento das Suas revelações.

A calúnia seguia-Lhe os passos, abraçada à inveja, enquanto o amor, em canção de rara e profunda sabedoria, espargia as dádivas da esperança, modificando as estruturas do comportamento humano.

Israel seguia a lei. A formalística havia submetido o espírito, enquanto o povo sofrido padecia as constrições sócio-políticas de maior gravidade.

Os problemas mais terríveis e intrincados, de mecanismo complexo, eram-Lhe apresentados, não para que os solucionasse, senão para O surpreenderem em algum ponto contrário às imposições legais.

Penetrando as almas e conhecendo-lhes as profundidades dos sentimentos infelizes, o Senhor colocava nos devidos lugares a situação conflitante sem comprometer-se, nem complicar a mensagem de libertação.

Certa vez, no entanto, mais graves se faziam as conjunturas.

Foi em uma dessas ocasiões, em que a lei do amor, apresentada em sublime conotação, balsamizou as almas, que Ele enfrentou a multidão angustiada, conclamando ao perdão das ofensas:

"Felizes são aqueles que perdoam, porque se libertam das paixões e adquirem a paz" - disse com superior entonação de voz.

A extraordinária melodia do perdão alcançou a acústica dos ouvintes como uma brisa perfumada, acarinhando a ardência das emoções.

"Quantas vezes, porém" - indagou Pedro - "perdoarei ao meu próximo? Sete vezes?"

Havia na voz do discípulo toda uma tradição ancestral e os laivos das humanas paixões, que sempre estabelecem limites nas realizações mais elevadas.

"Não, Simão. Não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes".

Quando a noite, porém, vestiu-se de astros balouçantes, encravados no zimbório do infinito, em colóquio particular, os amigos ainda comovidos com a revelação apresentada, Simão voltou a interrogar:

"E se alguém, com quem não simpatizamos, nos ferir, por motivo nenhum, será lícito reagir, apresentando-o ao juiz?"

"Não, Pedro. Todo aquele que agride, com ou sem motivo, encontra-se agredido em si mesmo."

"Isto porém, não significará apoiar a violência e permitir que os maus dominem os simples e os humildes?"

"De forma alguma. Os maus estão doentes. Portadores de tormentos destruidores no imo de si mesmos. Revidar-lhes a ofensa é aumentar-lhes a capacidade de agressão. Somente o amor, ungido de abnegação, consegue infundir a real transformação interior e demonstrar a grandeza da paz a quem a perdeu".

"E se da agressão pura e simples, ele partir para tomar nas suas mãos desvairadas a vida de um ente querido trucidando-o?"

"Ainda aí" - redarguiu Jesus - "o perdão assume o papel preponderante, porquanto mais importante se nos apresenta o desafio do amor, quanto mais grave e difícil é a situação que nos leva a perdoar".

"Mestre!" - propôs o companheiro com os olhos nublados - "saber que um vândalo, que retirou do nosso caminho, pela violência, o filho, a esposa ou a mãe e não revidar, não significa apoiar e estimar o direito da força?"

"Simão" - redarguiu o Mestre docemente - "o Pai estatuiu leis das quais ninguém se evade. Não colocamos aqui a questão em termos de esquecimento à responsabilidade e desrespeito aos códigos legais estabelecidos. Refiro-me ao revide, ao ódio, ao plano de cobrança, por parte daqueles que foram atingidos pela enfermidade agressiva do próximo. Além de eles não fugirem da consciência, que não os esquecerá no tribunal de si mesmos, cabe-nos deixar que os organismos especializados cumpram com seus itens. Nós, porém, permaneceremos confiantes de que nada acontece que não seja pela vontade do Pai. Assim, não provoquemos a ninguém, nem a ninguém firamos. Silenciemos as ofensas e dispensemos a misericórdia em toda parte e com todos aqueles com quem convivemos."

"Mestre! E se por fim nos materem?" - propôs com a voz embargada.

"Viveremos Simão" - empostou com ternura "Ninguém mata a vida. Prosseguiremos vivendo tanto quanto eles também viverão. Nunca te esqueças de que a posição de vítima é sempre melhor, a mais feliz. Quem aos outros fere, a si mesmo se fere; quem ao próximo infelicita, a si mesmo se destrói em emoção; com a diferença de que aquele que aparentemente é o perdedor, se amar e perdoar, estará isento de quaisquer aflições e ficará inatingido, portanto feliz."

Após uma pausa natural, na qual se escutavam as ânsias da natureza em festas de onomatopéia e perfumes, o Mestre encerrou o diálogo, afirmando:

"E quando Eu for erguido na cruz, atrairei todos a mim."

O cordeiro anunciava a dura imolação no altar do sacrifício, para ensinar ao mundo de todos os tempos o poema do perdão das ofensas, que é o momento culminante do amor total e abrangência de abnegação sem limites.

Desde então, toda vez, quando o carro do triunfo parecer conduzir os violentos e agressivos, na glória transitória de seus êxitos, as vítimas que tombaram sob as suas mãos sanguissedentas farão silêncio, para que eles recebam as homenagens vazias do mundo, que não lhes apagarão da consciência as reminiscências dos próprios crimes...

O poema do perdão, hoje como ontem e certamente quanto amanhã, será o hino das almas em sublimação, que o cantarão, enquanto galgam o monte do calvário, donde selarão moradas ao reino do puro amor, vestindo-se de eterna paz.

- Amélia Rodrigues -
(Mensagem psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco)

Texto <174><23/11/1999>

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