TUDO COMEÇOU COM UM SONHO QUE DESPERTA - por Por Nice Ribero

- Por Nice Ribero -

"Sonhei ser uma borboleta ou na realidade sou uma borboleta que sonhou ser um homem?" Chuang Tsú perguntou-se, após sonhar que era uma borboleta.

Apesar de ainda não ter morrido, pelo menos nesta vida, para saber o que acontece depois, posso seguramente relatar que já constatei a existência da vida fora do corpo. Ou seja, já estive, algumas vezes, consciente numa outra realidade no mesmo momento em que meu corpo estava adormecido. Como estreante no assunto, mal pude compreender o que estava acontecendo. Não tinha conhecimento algum sobre experiência extra-sensorial ou assuntos que envolvessem vida após a morte. Na época estava morando em Londres, onde trabalhava como jornalista esportiva.

Ao contrário do que acontece com muitas pessoas que para acreditarem na vida após a morte, precisam primeiro sofrer um acidente ou outras situações que as levam a uma experiência de quase morte, a minha crença surgiu de algo agradável e sem traumas. Como já mencionei, até o momento em que tive esta experiência, meu contato com esse tipo de informação era ZERO!

Numa noite muito fria e extremamente convidativa para se ficar em casa, eu preferi ficar só. Deitada confortavelmente numa long-chaise, deliciava-me com o calor daquela bebida típica dos ingleses. Através da janela via a neblina e a garoa caírem suavemente, acompanhando a melodia clássica que eu ouvia. A paisagem mostrava-se tão bela que daria um magnífico cartão postal daquela cidade londrina. Ao calor da lareira, de uma manta e de música estilo barroco, comecei a pegar no sono, sem contudo atingir o ponto "apaguei". Recordo-me que uma repentina chuva me fez abrir os olhos, tão forte o ruído das gotas que batiam na vidraça. Mesmo "dormindo", conseguia observar também o som do vento nas folhas secas que denunciavam a entrada do outono.

De repente, uma sensação de formigamento começou a subir dos pés para o corpo todo. Passei então a ficar consciente não só dos ruídos externos como também de uma espécie de estalo elétrico que parecia vir de dentro de minha cabeça. Em fração de segundos eu estava flutuando. Levitando! Minha parte racional ainda insistia em fazer-se ouvir "É impossível levitar. Isso só pode ser um sonho!" Mas eu estava totalmente desperta, e não sonhando. Livre do peso do meu corpo, era a própria borboleta que, ao libertar-se do antigo corpo, sentia indescritível leveza e o olhava sem mais se identificar com ele.

O passo seguinte foi voar em grande velocidade para um jardim de colorido vivo, cujo ambiente transmitia muita serenidade. À minha frente, um Ser, que naquele momento julguei ser Jesus. Olhos amorosos, vestes longas, de uma claridade que vibrava como faz a luz intensa, ele sorria, provocando em mim muito amor e paz. Paz que não se assina em papel, mas paz que nos integra a tudo e a todos. Sua presença me fazia tão bem, causava uma felicidade tão desconhecida, que eu lhe disse que não queria partir. Que não queria mais sair de perto dele.

É bom ressaltar que nosso diálogo era telepático e foi desta forma que ele me disse que eu deveria voltar e seguir meu caminho. Como eu resistia, ele mostrou-me uma grande árvore, de um verde vibrante, como direção que eu devia seguir. Num impulso eu o abracei e pedi-lhe para não sair dali, de perto dele. A resposta foi algo como "estarei sempre a seu lado". O contato com a energia daquele ser causou tal sensação de êxtase, felicidade e paz que tenho certeza, nunca a esquecerei.

A seqüência que me lembro já era o retorno ao quarto. Mas posso possivelmente ter esquecido outros acontecimentos. Isso é comum quando sonhamos. Unimos vários trechos de situações diferentes e pensamos que o que lembramos é o resultado, o roteiro do que vivenciamos naquela noite.

Só mais tarde é que fui aprender que esta experiência é denominada Projeção Astral ou Projeção da Consciência. Também pode ser chamada de experiência extrafísica, ou contato com a vida interna. Porém, naquele momento não me interessava nomenclaturas, mas a extraordinária vivência que pode ocorrer quando dormimos ou mesmo quando estamos acordados. Na cama, meu corpo dormia. Fora dele, eu, meu pensamento, minha consciência. Onde ficaria o "penso, logo existo" de Descartes? Ficou claro para mim que não precisamos do corpo físico para existir ou para pensar. Pelo contrário, o corpo é que necessita desse algo espiritual que alguns chamam de alma ou espírito para viver.

Questionei-me se aquilo poderia ser alguma espécie de alucinação. A resposta vinha do meu ser mais profundo: Não era! Estava consciente numa outra dimensão e continuava a pensar com a mesma lucidez. Definitivamente, eu existia também fora do corpo. Em seguida, minha consciência foi atraída de volta, num encaixe lento e perfeito. Foi então que percebi que aquele ser ainda estava presente. Como um pai abençoa o filho que se deita para dormir, ele abençoou-me com um beijo na testa. A maravilhosa sensação de sentir o encaixe que se deu de forma tão suave, o beijo amoroso em minha testa e, por fim, a vibração intensa que circulava da ponta dos meus pés ao alto da cabeça são inesquecíveis.

Mesmo ao levantar, meus pés pareciam mais fluídicos, ou seria o chão que não estava tão sólido? Durante aquela semana, era como se eu tivesse com baterias novas. Alegre, esperançosa, mil projetos, mais compreensiva e amorosa. É claro que, com o tempo, esta energia se foi desgastando. Porém, a imagem do que eu havia vivido era muito real e não se apagaria.

Hoje entendo o que o sábio chinês, Chuang Tsú, quis dizer sobre a possibilidade de, ao pensarmos estar acordados, lúcidos, na verdade estamos adormecidos para a realidade à qual pertencemos. E quando pensamos estar dormindo, estamos vivendo experiências em dimensões extrafísicas, experiências reais. Agora estou convicta de que existe vida fora do corpo, o que podia ser sinônimo de a vida continua depois da morte. Como a borboleta que vive presa num casulo, mas não é o casulo, nós temos um corpo para ser habitado, mas acreditamos que somos ele. Porém, estava mais que na hora de tal crença acabar. Como li no livro "A Quinta Raça", de Trigueirinho, "O ser humano não é o corpo. O corpo é para ser habitado." Com tal convicção, a partir daquele momento percebi que minhas pesquisas tomariam outro rumo.

É desse forma que qualifico tal sonho: como real. Era como se eu não tivesse dormido. Havia me deitado, vivido aquela experiência fora do corpo para depois levantar-me da cama e voltar para o cotidiano de "desperta". E cada acontecimento do dia anterior, daquela noite e daquele novo dia, existiam como extensão um do outro.

Diante daquela experiência, percebi que algo em mim havia mudado. Paz e harmonia eram sentimentos que tomaram para si um novo sentido. Era como se cada molécula e cada célula tivessem recebido uma visita de um impulso transformador. Aquele Ser havia deixado em meu corpo vestígios da existência do verdadeiro amor e felicidade. Deixou também uma vontade de conhecer o que os olhos não podem ver. O que está além da morte.

E eu que sempre quis escrever sobre esportes da moda e viver nos bastidores esportivos - na época cobria Fórmula Um - passei a me interessar pelo bastidor do invisível. Essa era uma pequena morte que eu vivia: deixar para trás o conhecido para a busca de conhecimento sobre dimensões espirituais. Para mim inusitadas e desconhecidas.

Um outro aspecto era que a vida apresentava novo sentido, o que estava longe de ser somente trabalhar, obter, procriar e procurar não se sabe exatamente o quê, para depois morrer insatisfeita. Viver, naquele momento, significava descobrir e absorver ensinamentos que me dessem qualidade de vida e compreensão do processo de vida e morte.

Se a mente humana reluta em aceitar a ligação entre a vida nos sonhos e a vida após a morte, eu estava com a bateria carregada para estudar o elo que tinha certeza existir. O que ainda não sabia é que aquele tipo de pesquisa seria algo perfeitamente possível, pois livros, cursos e pessoas para elucidarem o assunto, não faltavam. E nunca iriam faltar. Em pouco tempo, como que por magia, algumas pessoas foram colocadas em meu caminho e com elas pude usufruir de preciosos ensinamentos. Com Wagner Borges, aprendi muito sobre a vida no plano astral, como também que a vida nos sonhos é muito mais real do que podemos imaginar. Com Laércio Fonseca, tive esclarecimentos astrofísicos, que mostravam a urgência de sairmos do estreito pensamento terreno e partir para a imensidão do desconhecido. Dele, coloco aqui uma frase que bem traduz o que mentes esclarecidas sentem a respeito: "Quando eu morrer podem fazer festa, pois estarei muito melhor fora deste pedaço de carne que me limita à Terra!"

Com Trigueirinho, além de aprender que nossos corpos hospedam nosso ser profundo e imortal, aprendi que podemos contatar esse ser interno que conduz amorosamente nossos passos. Sobre a morte sintetiza: "O fraco teme a morte. O forte a enfrenta. O sábio a transcende".

(Extraído do livro "Vida Sem Fim", de Nice Ribeiro; Ed. Universalista; pág. 21 à 26)


Texto <197><17/02/2000>

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