CONVERSANDO ESPIRITUALMENTE COM FERNANDO PESSOA

(Nas Águas Correntes com o Poeta Iniciado no Vinho do Místico)

Enquanto eu trabalhava num texto, no silêncio da madrugada fria e silenciosa da grande metrópole, ele apareceu sutilmente à minha frente. Pela primeira vez eu o via nitidamente. Ele, o poeta português tão admirado, o iniciado que cantou o seu Portugal como um pedacinho perdido da Atlântida na face da Europa.

Há muito tempo que eu queria vê-lo, pois também sou seu admirador. E ali estava ele, de frente, fitando-me com uma expressão simpática e emanando uma atmosfera amistosa. Pelo seu jeito e pelas suas energias, suas condições espirituais são ótimas.

Engraçado. Sempre o imaginei do jeitinho tristonho e tímido com que ele era retratado nas fotos, mas ali estava ele, com semblante alegre, olhos brilhantes e um jeito seguro de ser, e sem óculos. Com o bigodinho escuro destacando-se no rosto bem alvo, vestia um suéter azul marinho com sobretudo da mesma cor por cima.

É nesses momentos que se vê o quanto o corpo espiritual (1) plasma exatamente aquilo que o espírito quer ou pensa sobre si mesmo. Ele poderia aparecer como uma bola de luz ou um corpo de luz, mas preferiu aparecer como um ser humano bem próximo, do jeitinho parecido com o de sua última encarnação na Terra.

Em dado momento, ele olhou para cima, como se visse alguém espiritual que eu não percebia. Então, prestei mais atenção e senti uma presença sutil, em forma de estrela de cinco pontas, na parte de cima do ambiente. Não identifiquei quem era, mas, por intuição, saquei que era um amparador extrafísico, que nos bastidores espirituais estava patrocinando aquele nosso encontro.

Foi quando o poeta se aproximou mais e tocou com um dedo na minha testa (2).

A partir desse momento, comecei a ouvi-lo mentalmente e a vê-lo melhor ainda, e ele abriu um largo sorriso. Sentia dele uma emanação de satisfação, como aquela de quando se encontra um amigo que há muito não se via.

Pensei em correr para o computador, para anotar tudo o que ele comunicasse, mas ele fez um gesto com a mão e me pediu para escrever no papel mesmo, como os poetas antigos faziam. Daí peguei um caderno e comecei a grafar o que se segue:

“No silêncio da madrugada te visito. Os meus pensamentos são teus.
Em teu coração aberto, pulso eu. Etéreo e sincero, absorto em teus sentidos...
Te digo mais: troco o meu chapéu pela tua estrela.
Pega o meu espírito no teu e escreve o que te der na telha!
Olha a estrela e mergulha no oceano das idéias...
Mexe a caneta pelo papel, como os poetas de outrora, que olhavam as águas correntes fundindo-se no grande mar, junto com suas lágrimas, enquanto escreviam o que lhes desse na telha.
Faz como o Tejo (3): entra no mar e se dissolve... e escreve o que te der na telha!”

* * *

“Os ideais superiores são como a arte.
Poucos apreciam.
Mas os que sabem, valorizam.
Os que não sabem, pisam sem ver.
Pérolas aos porcos?
Nem tanto, nem tanto...
Os ideais superiores não precisam de supervisores paramentados.
Não precisam ser sublinhados nem sublimados (ou subestimados).
Eles existem por si mesmos, naquelas alturas apropriadas, a que só chegam os iniciados que apreciam a arte.”

* * *

“Se colegas de ideal não pontificaram e ainda deitaram o vinho por terra, isso não é motivo para se guardar a safra na adega do esquecimento.
Há outros iniciados que apreciam uma boa safra.
Esses não ficam bêbados nem se esquecem dos altos ideais.
Não andam trôpegos nem faltam ao dever.
Esses conhecem o vinho do mistério superior, e ao sorvê-lo, despertam!
Enquanto alguns desperdiçam o vinho, outros se elevam sobriamente às estrelas.
Há gente nessa Terra que já conhece a safra do Céu, e brinda com os entes celestes o despertar do próprio espírito.”

* * *

“Como eu te disse no início: troco o meu chapéu pela estrela em cima da tua cabeça.
Depois, vamos brindar em frente às águas correntes.
E semelhante aos poetas de outrora, vamos deixar nossas lágrimas se misturarem nas correntes do Tejo do Além... que se fundem no grande oceano de estrelas.
Vale muito erguer as taças do vinho místico (4), para celebrar com a companhia apropriada, a lucidez dos poetas iniciados nas safras celestes.”

* * *

Logo após ter me passado esses escritos cheios de nuances iniciáticas, ele fez um gesto de despedida com as mãos. Observei que ele estava emocionado, como se houvesse cumprido alguma missão na passagem desses escritos interplanos.
Na verdade, ambos estávamos emocionados, como se nessa madrugada fria houvesse ocorrido um encontro há muito esperado, de espírito à espírito, diretamente.
Em meio a uma luminosidade branquinha brilhante, ele foi embora para o sítio extrafísico onde mora, às margens do Tejo Astral...
Agora minha noite não está mais fria, pois o meu coração foi aquecido pela visita do poeta brilhante que cantava as glórias da velha Atlântida nas terras de Portugal.

* * *

Ainda embalado pelas energias do poeta, liguei o computador para passar a limpo esses escritos. Então, tive vontade de escrever também. E aí, segui o conselho do poeta: mandei ver o que desse na telha! O resultado é o que se segue na seqüência:

“Não basta apenas viver, é preciso criar.
Não basta apenas acreditar, é preciso viver.
Não basta apenas sentir, é preciso agir.
Não basta apenas respirar, é preciso amar de verdade.
Não basta apenas ser iniciado, é preciso ser completo.
Não adianta fugir de si mesmo, pois o espírito está em todo lugar.
Não basta apenas morrer só de corpo, precisa morrer a ignorância no espírito.
Não basta apenas dizer misticamente ‘EU SOU!’, é preciso SER mesmo, em espírito e certeza da própria imortalidade.
Não basta apenas viver por viver, é preciso ser íntegro na vida que se escolheu levar.
Não basta somente acordar o corpo, após o sono natural, é preciso despertar a consciência para a vida.
Não adianta fumar e beber para esquecer, pelo contrário, o ideal é esquecer de beber e de fumar!
Não adianta entorpecer a lucidez para fugir do encontro consigo mesmo, pois, segundo o ensinamento do poeta desperto, quem toma do vinho do místico, só desperta a consciência... e abre o olho espiritual.
Brindemos a isso, em espírito!
Fernando Pessoa (5), valeu!”

Paz e Luz.

(Esses escritos são dedicados a três mestres espirituais hindus, a quem devo muito: Bábaji, Vyasa e Paramahamsa Yogananda.)


- Wagner Borges, sujeito com defeitos e qualidades, cada vez mais agradecido ao Grande Arquiteto Do Universo por todas as oportunidades de crescimento e trabalho.
 
- Notas:
1. “Corpo espiritual” (Cristianismo – Cor. I, cap. 15, vers. 44) – Sinonímias: “Corpo astral” (do Latim “Astrum”: “Estrelado” – Expressão usada pelo grande iniciado alquimista Paracelso, no séc. 16, na Europa, e por diversos ocultistas e teosofistas posteriormente) – “Perispírito” (Espiritismo – Allan Kardec, séc. 19, na França) – “Corpo de luz” (Ocultismo), “Psicossoma” (do Grego: “Psique”: “Alma”; e “Soma”: “Corpo” – Significa literalmente “corpo da alma” – Expressão usada inicialmente pelo espírito André Luiz nas obras psicografadas por Francisco Cândido Xavier e por Waldo Vieira, nas décadas de 1950-1960, que atualmente é mais usada pelos estudantes de Projeciologia).
2. Testa: Área do chacra frontal, centro energético e parapsíquico responsável pela clarividência e intuição.
3. Rio Tejo: Importante rio de Lisboa, Portugal, local sagrado de partida dos navegadores portugueses, na época áurea de suas incursões marítimas e do descobrimento das terras de além mar. Rio mítico da alma portuguesa e exaltado por Camões e Fernando Pessoa em diversos de seus escritos.
4. Sobre o simbolismo do vinho místico, ver o ótimo livro de Paramahamsa Yogananda: “O Vinho do Místico” – Ed. Self Realization Fellowship. Obs. Esse livro é baseado no clássico árabe de Omar Khayam: “O Rubayat”. Muitos poetas iniciados do passado se utilizavam da metáfora do vinho místico associado ao despertar da consciência, dentre eles o sábio poeta hindu Kabir e o sábio poeta sufi Rumi.
5. Fernando Pessoa (1888-1935): Simplesmente, ele e Camões são os maiores poetas nascidos nas terras de Portugal. Deixo na seqüência dois textos de Fernando Pessoa para apreciação dos leitores.
“Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ‘Navegar é preciso; viver não é preciso.’
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.”
(Texto do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética" – Editora Martin Claret.)

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