PONDERAÇÕES CONSCIENCIAIS

(MISTICISMO SADIO X ESQUISOTÉRICOS E MISTICÓIDES)

Ontem eu estava conversando por telefone com o colega Marco Antonio Coutinho, jornalista (1) e um dos maiores pesquisadores das viagens fora do corpo (projeção da consciência, viagem astral, projeção extrafísica) no Brasil, sobre uma expressão que uso de brincadeira para definir o pessoal que viaja na maionese psíquica: “misticóides”.
Nessa conversa eu estava explicando a ele que a expressão não se refere aos místicos em geral, pessoas que buscam o conhecimento espiritual em diversas áreas a partir de um parâmetro espiritual sadio, e com profundidade de consciência naquilo que buscam.
Pelo contrário, a expressão se refere àquele pessoal sem profundidade que corre atrás das coisas espirituais motivados por parâmetros cheios de leviandade na abordagem. Não querem aprofundamentos sadios em coisa alguma e normalmente não se dedicam seriamente àquilo que estudam, a não ser quando é para algum ganho próprio ou satisfação momentânea do ego.
Costumam encher cursos e palestras que falam de poder pessoal, mas jamais iriam num curso de como desenvolver a paciência ou o perdão. Falam de vida após a morte, mas morrem de medo de espíritos, e não gostam quando alguém fala de aprofundamento consciencial perto deles.
Muitos mencionam os chacras e as bioenergias, mas não são capazes de exteriorizar um tiquinho de energia na intenção de alguém.
Falam de carma (2), mas sempre o dos outros. Para alguns, tudo é carma e tem causas radicadas em vidas passadas ou extrafísicas, mesmo que o fato apontado tenha uma causa atual e facilmente explicável por parâmetros físicos ou psicológicos daqui mesmo. Inclusive, há aqueles que usam a noção de carma como uma espécie de vingança da natureza. Dizem assim: “Vou perdoar e deixar pra lá, porque sei que a lei do carma há de acertar as contas com fulano de tal, se não for nessa vida, será na próxima, pois ninguém escapa das leis de causa e efeito!”
Quando o tema é reencarnação, sempre aparece um misticóide dizendo que foi algum personagem importante em outras vidas. E aí fica a pergunta óbvia: será que esse pessoal não imagina que também pode ter sido bandido, vagabundo ou alguém medíocre antes? E pela maneira como levam a vida atual, fica claro que a leviandade de agora é efeito direto das outras vidas, o que evidencia que muitos já vêm fazendo lambanças há muito tempo.
E aqueles que acham que estão na última vida e que só estão na Terra para ajudar, e que nada tem a aprender na atual existência? Como diria o Robin (no antigo seriado de TV de Batman e Robin, lá pelos idos da década de 1960): “Santa arrogância, Batman!”
Certa vez, quando eu ainda morava no Rio de Janeiro, ao final de um curso sobre projeção da consciência, uma mulher linda e jovem me procurou e disse-me:
“Wagner, fiz uma consulta com um sensitivo e ele me disse que eu estou na minha última reencarnação, que após essa vida eu nunca mais renascerei aqui na Terra. Depois, um outro sensitivo, que sequer conhecia o anterior e nada sabia disso, me disse a mesma coisa numa outra consulta. Daí eu lhe pergunto: isso é verdade? Estou mesmo na minha última vida aqui na Terra?”
Não agüentei e comecei a rir, e disse-lhe:
“Você ainda irá reencarnar muitas vezes por aqui, e eu também! Sabe por quê? É que alguém que esteja realmente na última vida, é alguém que já aprendeu tudo aquilo que a experiência na Terra pode oferecer. Ou seja, é alguém equilibrado, sereno, cheio de sabedoria perene e amor incondicional. E alguém assim já se conhece muito bem e nunca iria tomar consulta com ninguém nem teria dúvida alguma sobre os seus rumos de vida, seja aqui ou em outro lugar!”
A moça riu, pois era inteligente e tinha entendido o toque. Depois até ficamos muito amigos, e sempre que nos encontrávamos, ríamos muito desse lance.

* * *

Há também o pessoal que acha que tudo que acontece é obsessão espiritual. Muitas vezes camuflam suas atitudes mesquinhas com o argumento de que foram os espíritos inferiores que insuflaram tal coisa em sua mente. Outros culpam os espíritos obsessores por qualquer coisa de ruim que acontece em sua vida.
Que há obsessões espirituais terríveis rolando invisivelmente em cima da humanidade, isso é certo, mas daí a achar que tudo que acontece é por isso há uma grande distância.
Por falar nisso, certa vez uma outra mulher me procurou no fim de uma palestra e me disse o seguinte: “Wagner, me ajuda. Tem uns espíritos assediadores jogando pensamentos negativos na minha mente. Tira eles de cima de mim, por favor!”
Então ela me contou de que tinha ido a um sensitivo fazer uma leitura espiritual, e que o mesmo era incompetente e não tinha sequer visto os espíritos em torno da aura dela. Depois ela foi num médium, que, segundo ela, também não conseguiu ver nada. Daí ela me procurou para ajudá-la.
Normalmente não dou consultas, por falta de tempo para isso mesmo, mas costumo olhar espiritualmente algumas pessoas ao final das palestras, quando sobra um tempo, e isso ocasionalmente.
Assim, apliquei energia nela e fiz uma avaliação rápida de sua aura. E realmente não havia espíritos densos perto dela. No entanto, havia grandes blocos de formas-pensamento pesadas e escuras em vários pontos, além de seus chacras apresentarem bloqueios energéticos de vários tipos.
Em torno da cabeça pairava uma massa acinzentada, e isso evidenciava o acúmulo de pensamentos pesados vertidos por ela mesma. Em torno de seu peito havia uma massa amarronzada, o que caracterizava emoções descontroladas. E em torno da garganta e do plexo solar diversas manchas cinzentas misturadas com tons opacos de pardo.
Resumindo: a mulher era terrível.
Eu nunca havia visto alguém com uma aura tão suja e que não tivesse espíritos densos agarrados nas energias por sintonia. Porém, com ela não tinha ninguém. Pensei comigo mesmo: “Acho que até os espíritos tem medo dessa dona, e caíram fora!”
Daí, com todo jeitinho tentei explicar para ela de que não haviam espíritos jogando pensamentos pesados em sua mente, e de que o lance era anímico mesmo, por sua própria responsabilidade e condição existencial. Falei dos blocos de energias pesadas que tinha visto e de que eram causados por climas mentais negativos que ela mesma estava acalentando, e por emoções desencontradas que estavam solapando-a por dentro.
E quem disse que ela aceitou ouvir isso?
A mulher ficou uma fera e disse bem alto: “Já vi que você é incompetente mesmo, igual aos outros. Tem que ter espíritos aqui!”
Nessa hora, até mesmo para lhe dar um tranco bem dado e necessário, eu não agüentei e disse: “Quer saber de uma coisa? A senhora quer é que eu fabrique um espírito para justificar o seu padrão mental barra pesada. Quer que eu invente uma obsessão espiritual para justificar o seu mau humor e a pesada carga de mágoas que a senhora carrega dentro do peito. Não, não tem espíritos em sua aura, e acho que eles fugiram de medo do seu mau humor. O seu problema não é espiritual, é psíquico mesmo, e as pessoas não gostam da senhora por causa de sua violência e despotismo nas relações. Ou seja, não são os espíritos densos, coitados, que estão atormentando os seus pensamentos e emoções, é a senhora que é complicada demais por si mesma!”
Furiosa porque eu não havia dito o que ela queria ouvir, a dona saiu batendo pé violentamente, provavelmente para procurar algum sensitivo picareta que lhe tomasse muita grana de consulta e lhe dissesse que o seu baixo nível consciencial era por causa da ação de espíritos maléficos.

* * *

Alguns misticóides se apóiam de forma alienante em gurus estranhos, mestres longínquos, ou seitas enganosas, e mergulham de cabeça em práticas esdrúxulas, pensando que isso é espiritualidade, e o pior, prescindindo da capacidade de desenvolvimento do autoconhecimento e entregando o espírito e as suas energias de bandeja a pessoas, coisas e situações fora delas mesmas. Isso ocorre por causa de dois fatores óbvios: falta de discernimento e preguiça de raciocinar para filtrar tudo aquilo que se escuta, vê e lê. Se cada pessoa filtrasse as coisas com bom senso, equilíbrio e consciência, com certeza de que ninguém nunca seria enganado em sua busca espiritual.

* * *

Há um texto que o espírito Vidigal, um dos cronistas extrafísicos da Cia do Amor (3), me passou em 1991 e que já apontava naquela época toques irônicos sobres essas distorções misticóides. Como o texto possui aquela picardia característica de seus escritos e apresenta pontos em comum com o que estou expondo aqui, reproduzo o mesmo na seqüência:

“Nove entre dez estudantes espirituais são covardes.
Basta desencarnar algum ente querido e eles berram mais do que os materialistas.
Basta uma simples pressão da família e eles batizam seus filhos, como se fossem religiosos ferrenhos e sem deliberação própria.
E a arrogância?
Basta ficarem em evidência que eles se acham os maiores virtuosos do mundo, como se não tivessem vários defeitos iguais a todos.
Quanto aos objetivos, basta acontecer um problema qualquer e eles se acham injustiçados pela vida.
E em relação ao estudo, esses hipócritas espirituais são mais pródigos em estudar a vida do próximo do que em estudar as obras de esclarecimento profundo.
São exagerados quando dizem: “Eu sou dedicado a espiritualidade!”
Dizer isso é muito fácil, provar na prática é que é difícil.
Alguns até brincam com gnomos de madeira, criando lendas e fantasias de que viram isso ou aquilo. E olhe que nem são irlandeses!
É mais fácil ter fé num duende do que transformar a si mesmo em um verdadeiro espírito da natureza: alegre, simples e radiante, e sem maldade alguma na alma.” (4)

Como se observa aqui, o Vidigal brinca com o tema citando as lendas e os mitos ancestrais da Irlanda, país onde a tradição popular, desde os celtas antigos, sempre falou da presença de espíritos da natureza habitando e vitalizando os elementos. Daí a expressão (antigamente esotérica, atualmente nem tanto) “elementais”, tão citada em livros de Ocultismo em geral.
Acrescentando mais um comentário, sei de pessoas que fantasiam tanto, que basta o vento balançar um galho de árvore para elas dizerem que o movimento foi causado por um duende pendurado ali. E nem vou comentar aqui sobre o pessoal que acha que os anjos são todos brancos e de olhos azuis, a moda nórdica. Será que não tem anjo negro ou oriental por aí, só branco?
Que existem seres invisíveis na natureza e que são percebidos em condições especiais de sensibilidade, isso é real, e eu mesmo já vi diversas de suas manifestações, tanto em experiências fora do corpo quanto pela clarividência. Mas não é esse o ponto. A questão aqui é a distorção e a viagem na maionese psíquica em cima do tema.

* * *

Não desejo ofender a ninguém com esses comentários nem sou dono da verdade absoluta (ninguém é!), mas é necessário expor aqui esses toques de esclarecimento consciencial de forma clara e sem deixar a bola quicando por causa do receio de não ser entendido. Penso que quem trabalha espiritualmente de forma consciente pode e deve expor o que pensa nessa temática (ainda mais no meu caso, trabalhando com grande público nessa área diretamente ao longo de mais de duas décadas, e constatando tudo o que estou evidenciando nesses toques na prática), justamente para esclarecer e evitar mais distorções, o que só prejudica o estudo espiritual verdadeiro.
Penso no ridículo de alguém comprar um CD de relaxamento ou de visualização criativa e dizer depois que é espiritualista só por isso.
Outros lêem um romance sobre almas gêmeas (esotérico? Nem tanto!) e começam a dizer para os amigos que estão virando bruxos(a) da Nova Era.
Vários procuram consultar o Tarô (que é uma ferramenta fantástica para acessar diversos níveis ocultos), mas não são capazes de dar um bom dia para o porteiro do seu prédio. E ainda dizem para as amigas que são “New Age”.
Acho que os antigos iniciados devem estar danados da vida no Astral. Criaram as cartas do Tarô para preservar certas idéias metafísicas e deixar um legado esotérico para a posteridade, e olhe só no que deu!
Os misticóides que consultam o Tarô não querem saber de espiritualidade. Querem mesmo é saber do que lhes interessa, ou seja: amor e negócios!
Assim, observamos o misticismo sadio sendo corrompido pelo modismo misticóide alienante. E o pior: falar de amor real, honra na caminhada, busca sincera, crescimento consciencial, ética, lucidez, maturidade, perdão, paciência, ascensão espiritual mediante transformação interior, e educação da vontade para finalidades criativas e sadias no mundo, parece algo distante e que nada tem a ver com o que as pessoas vem buscando espiritualmente.
Falando francamente: o místico sadio busca a sabedoria, não o poder do ego. O misticóide busca levianamente o poder ou alguma fórmula mágica ou exercício secreto que o transforme imediatamente e sem esforço sério em avatar da Nova Era.
De forma sacana, reconheço (e isso é que é legal), mas bem intencionada, chamei os “viajantes maionesísticos” de misticóides. Já o Marco Antonio Coutinho (que trilha o caminho místico com honra, bom humor e inteligência), segundo o que me disse ontem ao telefone, arranjou um outro nome para essas viagens na maionese psíquica: “esoterices”.
Espero que ninguém se aborreça com a colocação desses toques aqui, ainda mais que o objetivo disso é apenas esclarecer e corrigir as distorções mencionadas nessa temática espiritual tão querida por todos nós.

Paz e Luz.

- Wagner Borges, sujeito com defeitos e qualidades, espiritualista, que às vezes é chamado por alguns de místico, e até aí, tudo bem. Mas se alguém chamar de misticóide, aí o bicho pega! Hehehehehehehe...
Salvador, 30 de janeiro de 2004.
 
- Notas:
1. O excelente site do Marco Antonio Coutinho sobre experiências fora do corpo é www.marco.antonio.nom.br
2. Carma (do sânscrito “Karma”): Ação; Causa – É a lei de causa e efeito universal – Tudo aquilo que pensamos, sentimos e fazemos são movimentações vibracionais nos planos mental, astral e físico, gerando causas que inexoravelmente apresentam seus efeitos correspondentes no universo interdimensional. Logo, obviamente não há efeito sem causa, e os efeitos procuram naturalmente as suas causas correspondentes. A isso os antigos hindus chamaram de carma.
3. A Cia. do Amor é um grupo de cronistas, poetas e escritores brasileiros desencarnados que me passam textos e mensagens espirituais há vários anos. Em sua grande maioria, são poetas e muito bem humorados. Segundo eles, os seus escritos são para mostrar que os espíritos não são nuvenzinhas ou luzinhas piscando em um plano espiritual inefável. Eles querem mostrar que continuam sendo pessoas comuns, apenas vivendo em outros planos, sem carregar o corpo denso. Querem que as pessoas encarnadas saibam que não existe apenas vida após a morte, mas, também, muita alegria e amor. Os seus textos são simples e diretos, buscando o coração do leitor.
4. Sobre espíritos da natureza e devas, sugiro a leitura desses dois ótimos livros sobre o tema: “O Reino dos Deuses”; Geoffrey Hodgson; Editora Pensamento – e “O Lado Oculto das Coisas”; Charles Webster Leadbeater; Editora Pensamento.

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