VIAJANDO NA LUZ LÍQUIDA II

Não é no paraíso nem no templo.
Não, não! Tudo isso é fora de você.
O lance é mais embaixo, em você mesmo.
Está tudo no coração!

Sem clausuras nem doutrinas, só a luz do espírito.
Sem dramas nem técnicas, só amor em profusão.
Sem lenço, sem documentos, só a consciência.
Sem que o sino toque, você ouve o som do Todo!
Da base da coluna, a energia ascende ao coração.
É como um jorro de luz líquida, morna e terna.
Dourada no início, ela fica rosa no coração.
Então, você se torna amor-rosado, paz morninha...

E o jorro continua, para cima, para o centro das mil pétalas.
Você viaja sereno e sorridente, para a coroa de luz.
Ela é iridescente, multicolorida, da cor da vida universal.
Dentro de você, reverbera um som sem som: OM!

Sim, o que você escuta não tem comparação com nada de antes.
Está dentro de você mesmo, sempre esteve, e é cósmico!
O jorro sobe e encontra um lótus amarelo aberto no alto da cabeça.
A luz líquida entra na flor, e suas pétalas se abrem com mil brilhos.

Ao mesmo tempo, desce uma cascata de luz prateada sobre você.
E tudo se torna UM!
Você é lótus-luz viajando no Samadhi...
Todos os lugares se tornam templos, todos os seres, DEUS!

Agora você sabe:
OM, som de Brahman, tom do atman...
Os Rishis da antiga Índia estavam certos: Tudo é UM!
Os poetas também: TUDO É AMOR!

Nenhum sino tocou, mas você ouviu a voz do silêncio.
Ninguém falou de salvação, foi o amor que lhe tocou.
Você não fez nada; foi a luz que fez e refez sua vida.
Não foi você... foi a luz, a luz, a luz...

O despertar da consciência é silencioso, como o despontar da aurora.
A luz faz a festa na atmosfera, dentro e fora de você.
Os seus chacras dançam no rio dourado e rosa de sua coluna.
O Samadhi é festa serena! É a luz, a luz, a luz...

Sem lenço, sem documento, só a luz serena...
Sem disciplina férrea, só o amor soltando as amarras...
Sem palavras que possam descrever a aurora em você mesmo...
Sem saber como agradecer ao Todo, por tudo!

O compositor faria uma canção;
O poeta faria nascer uma poesia maravilhosa; O artista pintaria um quadro incrível; Mas, agora você compreende o silêncio dos Rishis de outrora.

Como eles poderiam falar dessa luz?
Como cantar a aurora do infinito?
Como pintar a luz do eterno no transitório?
Como falar de um amor que não se explica, só se sente?

Mesmo assim, os poetas, os músicos e os artistas tentaram...
No silêncio do invisível imanente, os Rishis os abençoaram.
E agora você compreende todos eles em seu coração.
Você sabe o que a luz fez com eles!

Nem você subiu, nem o paraíso desceu.
Foi a luz que encontrou o lótus aberto pelo amor.
E você encontrou o infinito na flor de luz.
Samadhi é o encontro sereno da luz com o lótus.

Muitos tentarão explicar a sua viagem luminosa.
Alguns com abordagem psicológica; outros com lições iogues.
Mas, você apenas sorrirá com paciência e lucidez.
Somente a luz poderá explicar a luz, sem explicação alguma!

Nem você subiu nem Deus desceu!
No espaço do não-espaço, num átimo do tempo sem tempo...
Tudo aconteceu! Aqui, além, em cima, embaixo; em você.
Poucos irão entender o que a luz fez com você!

Agora você compreende os Rishis, não é mesmo?
Então, curve a cabeça em respeito a esses mestres da consciência.
Inspire-se e viaje com eles na luz do Samadhi.
Sinta o coração do Todo pulsando em tudo!

Faça como eles: abrace a humanidade em silêncio.
Compartilhe invisivelmente a luz com os seus irmãos.
Você não vai até eles, nem eles vêm até você.
Além do espaço/tempo, a luz fará o encontro sutil.

P.S.: Ah, Tom de Deus, como é mesmo a música da luz?
Kabir, Tagore, Gibran e Rumi... centelhas da flor de lótus do Oriente.
Fernando Pessoa... centelha atlante da rosa do Ocidente.
Os Rishis... centelhas da sabedoria cósmica nos Upanishads.
Jesus... centelha de amor nos corações.
Quem compreende, os compreende.

(Essas linhas são dedicadas a duas consciências muito legais: o sábio Sry Yuketswar, mestre de Kryia Yoga, e o inspirado Tom Jobim, mestre brasileiro da alegria e da composição).

OM! Tudo é UM! Tudo é Brahman!
Paz e Luz.


- Wagner Borges – espiritualista com qualidades e defeitos, que conhece bem a limitação das palavras, mas, mesmo assim escreve e tenta transmitir algo de bom do que aprendeu com o silêncio dos Rishis.
São Paulo, 27 de fevereiro de 2006.



- Notas do sânscrito:

* Brahman: O Supremo, O Absoluto, Deus, O Grande Arquiteto Do Universo, O Todo que está em tudo!

* Samadhi: expansão da consciência; consciência cósmica.

* Rishis: sábios espirituais da antiga Índia, mentores dos Upanishads.

* Atman: a centelha espiritual do divino; a essência divina e imperecível; o espírito imortal.

* Chacras: rodas de luz; centros energéticos; centros de força.

* OM: a vibração do Todo que está em tudo; o verbo divino (também chamado em sânscrito de Omkara, Shabda ou Pranava). No contexto hinduísta, é considerado o maior mantra de todos.

* Sry Yuketswar (pseudônimo iogue de Priya Nath Karar; 1855-1936): foi discípulo do grande mestre Lahiri Mahasaya e guru de Paramahamsa Yogananda. É considerado um dos maiores mestres de Kryia Yoga da Índia. Para maiores detalhes sobre esse inspirado mestre hindu, ver o excelente livro “Autobiografia de Um Iogue”, de Paramahamsa Yogananda – Edição brasileira da SRF - Self-Realization Fellowship. Ou ver artigo específico sobre ele no site da SFR: http://www.srfsaopaulo.com.br/noticias/yukteshwar150.htm

* Enquanto eu escrevia essas linhas, rolava aqui no som um belo trabalho da banda “Bruce Hornsby e The Range” (projeto do vocalista e tecladista americano Bruce Hornsby). Trata-se do CD. “Scenes From the Southside” – 1988. As músicas “The Valley Road” e “The Show Goes on” (2ª e 5ª músicas do CD, respectivamente) são muito bonitas.

* Para melhor compreensão desses escritos, reproduzo na seqüência a primeira parte desse texto, postada pelo site do IPPB em 2001 (www.ippb.org.br).





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VIAJANDO NA LUZ LÍQUIDA
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Todo encanto nasce no canto secreto do coração.
No silêncio de algo que a mente inquieta não percebe.
Na imanência do "EU SOU" simplesmente.
Na luz sem som, um sol de amor.

Uma luz líquida que viaja cantando.
Uma explosão de luz silenciosa abrindo as pétalas do lótus.
A canção que viaja no céu do coração nada pede.
Só canta... e encanta.

Nas batidas do coração, o amor.
No toque do amparador, a assistência invisível.
Nas pulsações da vida, a experiência.
Na canção, um samadhi quietinho.

Viajando nesses escritos, uma vibração silenciosa.
Uma canção quietinha oferecida aos irmãos da Terra.
Eles não sabem, mas há um canto secreto em seus corações.
Ele está cheio de luz líquida... Aguardando o despertar.

Há irmãos de outras esferas observando.
Eles escutam o canto e dizem:
"Ninguém está sozinho!
Eleve os pensamentos às estrelas, faça a UNIÃO."

Muitos sonhos não são sonhos, são viagens do espírito.
Tudo é sintonia! O vento sopra onde quer.
O espírito emancipado é filho do vento e irmão estelar.
É filho da UNIÃO!

Nas asas da inspiração, uma canção.
Viajando no bojo do amor, um samadhi.
Deslizando pelo topo da cabeça, mil estrelas.
Uma viagem espiritual... na luz líquida.

Milhares de naves estelares na canção.
O sorriso de Shiva ali... no silêncio.
E uma consciência que diz: "Obrigado".
Quem a compreende, compreende.

- Wagner Borges -
São Paulo, 25 de outubro de 2001.

PS: Esses escritos são dedicados a Paramahansa Ramakrishna, Sry Aurobindo e Ramatís, mestres da UNIÃO e viajantes sutis de um amor que a tudo e a todos compreende em silêncio.



- Notas:

* Luz líquida: É uma expressão esotérica que significa "as energias da shakti" (kundalini) ascendendo do chacra básico ao coração espiritual e daí até o chacra coronário no topo da cabeça. É uma luz branquinha brilhante, pura energia quintessenciada viajando pelo nádi (conduto sutil) central da coluna, como um fogo líquido e cheio de amor.

* Samadhi (do sânscrito): expansão da consciência, consciência cósmica.

* UNIÃO: Trata-se de uma expressão espiritual que significa a conexão interdimensional com os planos sutis e com os mestres da consciência. Inclusive, a expressão “Yoga”, do sânscrito, significa literalmente UNIÃO!

* Amparador: guia espiritual; mentor espiritual; protetor astral; benfeitor extrafísico.

* Shiva: dentro da cosmogonia hinduísta, é o aspecto do divino personificado como o Transmutador interdimensional, o Senhor das energias e de todas as transformações nos planos fenomênicos.


Obs.: Em homenagem aos poetas inspirados e citados no segundo texto, posto logo abaixo alguns trechos de sua sabedoria, para deleite dos leitores sintonizados nas ondas do coração espiritual. Peço desculpas a todos pela extensão desse e-mail, mas faço questão de deixar registrada aqui a inspiração desses mestres da escrita e viajantes da luz líquida também. Falando claramente, ler a poesia espiritual desses caras maravilhosos só faz bem à consciência e combate a mediocridade cultural vigente nos dias atuais. Faz bem à inteligência e ao coração. E faz pensar em climas mais elevados, além do materialismo tão cultuado pela raça humana em sua viagem louca pela existência. Inclusive, quem quiser dar uma olhada num site contendo diversas poesias desses mestres, é só dar uma chegadinha no “Distinções do Coração”, cantinho virtual organizado pelo poeta e artista plástico brasileiro Laél Bastida Lopes - http://www.bastida.com.br/distincoes/

Bom, vamos lá!

Salve os poetas do espírito e amigos do coração sutil.


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DOIS TOQUES ESPIRITUAIS DE KABIR
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“NÃO VÁS para o jardim florido!
Ó amigo! Não te voltes para lá;
É em ti que se encontra esse jardim.
Escolhe teu lugar entre as mil pétalas
do lótus, e contempla desse posto
a Beleza Infinita.”

* * *

"DANÇA, meu coração! dança hoje com alegria.
Os compassos do amor enchem de música os dias e as noites, e o mundo escuta suas melodias:
Loucas de alegria, a vida e a morte dançam.
Ao ritmo dessa música, dançam as colinas os mares e a terra.
Entre risos e lágrimas, a humanidade dança.
Para que vestir o hábito do monge e viver apartado do mundo em orgulhosa solidão?
Vê! Meu coração dança no requinte de uma centena de artes; e o Criador se compraz."

- Kabir nasceu em Benares em 1440; desencarnou em 1518.
Tornou-se um ícone das poesias místicas da Índia.
Ver o livro “Cem Poemas” – Attar Editorial.

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DOIS POEMAS DE TAGORE
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Meu Rei, houve um tempo em que eu não estava pronto para Ti.
Todavia, sem que eu pedisse,
entraste em meu coração como um desconhecido qualquer, e marcaste os momentos fugazes da minha vida com Teu selo de eternidade.

Hoje, quando me deparo ao acaso com esses momentos e neles vejo a Tua marca, percebo que eles ficaram espalhados no pó, misturados com a lembrança de alegrias e tristezas dos meus dias esquecidos.

Tu não desprezava os meus brinquedos de criança pelo chão, e os passos que eu ouvia em meu quarto de brincar são os mesmos que agora ecoam de estrela em estrela.

* * *

No dia em que a flor de lótus desabrochou, a minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia, e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.

Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro de um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.

Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim, que ela era minha, e que essa perfeita doçura tinha desabrochado no fundo do meu próprio coração.

- Rabindranath Tagore foi poeta, romancista e teatrólogo; nasceu em Calcutá, Índia, em1861; desencarnou em 1941. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1913, a mais honrosa homenagem literária do Ocidente.
Ver o seu livro clássico "Gitanjali" - Edições Paulinas.

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A BELEZA DE KALIL GIBRAN KALIL
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Onde procurareis a beleza
e como a podereis encontrar a menos que ela mesma seja vosso caminho e vosso guia?
E como podereis falar a menos que ela mesma teça vossas palavras?
Os aflitos e os feridos dizem:

A beleza é amável e suave
Como uma jovem mãe, meio encabulada na sua glória, ela caminha entre nós.

Os apaixonados dizem:
Não, a beleza é uma força poderosa e temível.
Como uma tempestade, ela sacode a terra abaixo de nós e o céu acima de nós.

Os cansados e os gastos dizem:
A beleza é um murmúrio suave.
Fala em nosso espírito.
Sua voz cede aos nossos silêncios como uma luz tênue que treme por medo da sombra.

Mas os turbulentos dizem:
Nós a ouvimos gritar entre as montanhas e com seus gritos chegavam o tropel de cavalos, o bater de asas e o rugir de leões.

À noite, os guardas da cidade dizem:
A beleza despontará do Oriente com a alvorada.
E, ao meio-dia, os trabalhadores e os transeuntes dizem:
Nós a temos visto inclinada sobre a terra, das janelas do poente.

No inverno, os prisioneiros da neve dizem:
Ela virá com a primavera, pulando sobre as colinas.
E no calor do vergo, os ceifeiros dizem:
Nós a vimos dançar com as folhas do outono e havia neve no seu cabelo.

Todas essas coisas, dissestes da beleza.
Na verdade, porém, não falastes dela,
mas de desejos insatisfeitos.

E a beleza não é um desejo, mas um êxtase:
Não é uma boca sequiosa,
nem uma mão vazia que se estende,
mas antes, um coração inflamado e uma alma encantada.

Ela não é a imagem que desejais ver,
nem a canção que desejais ouvir,

Mas, antes, a imagem que contemplais com os olhos velados e a canção que ouvis com os ouvidos tapados.
Não é a seiva por baixo da cortiça enrugada, nem uma asa atada a uma garra,

Mas, sim, um pomar sempre em flor
e uma muItidão de anjos em vôo.

Povo de Orphalese, a beleza é a vida
quando a vida desvela seu rosto sagrado.
Mas vós sois a vida e vós sois o véu.

A beleza é a eternidade olhando para si mesma num espelho.
Mas vós sois a eternidade e vós sois o espelho.

- Gibran Khalil Gibran nasceu em 1883, em Bicharre, Líbano; desencarnou em Nova Iorque, em 1931.
Poeta árabe dotado de alta sensibilidade espiritual, foi autor de vários livros inspirados. Ver o seu livro clássico “O Profeta” – Editora Civilização Brasileira.

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DOIS TEXTOS DA SABEDORIA DE RUMI
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A VIAGEM DO SONHO
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Com a oração da noite,
Quando o sol declina e se esconde,
Fecha-se a via dos sentidos
E abre-se o caminho ao não-visto.

O anjo do sono conduz então os espíritos Como o pastor o seu rebanho.
Para além do espaço, em pradarias transcendentes,

Que cidades, que jardins ele nos mostra!
Quando o sono nos rouba a imagem do mundo, O espírito contempla mil formas e maravilhas.
É como se habitasse desde sempre essas paragens,

Já não recorda a vida na terra,
Nem sente cansaço ou tristeza.
O coração liberta-se por inteiro
Do peso do mundo, de toda a opressão,
E já nem percebe os cuidados que lhe são dedicados.

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NO MEU FUNERAL
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No dia em que levarem meu corpo morto
não penses que meu coração ficará neste mundo.
Não chores por mim, nada de gritos e lamentações
- lembra que a tristeza é mais uma cilada do demônio.

Ao ver o cortejo passar, não grites: "ele se foi!"
Para mim, será esse o momento do reencontro.
E quando me descerem ao túmulo, não digas adeus!
A sepultura é o véu diante da reunião no paraíso.

Ante a visão do corpo que desce
pensa em minha ascensão.
Que há de errado com o declínio do sol e da lua?
O que te parece declínio, é tão somente alvorada.

E ainda que o túmulo te pareça uma prisão, e é ele que liberta a alma:
toda semente que penetra na terra germina.
Assim também há de crescer a semente do homem.

O balde só se enche de água
se desce ao fundo do poço.
Por que deveria o José do espírito
reclamar do poço em que foi atirado?

Fecha a tua boca deste lado
e abre-a mais além.
Tua canção triunfará
no alento do não-lugar.

- Jala udi-Din Rumi nasceu em Balkh, no Korasã, em 1207; desencarnou em 1273. Foi o grande poeta místico da Pérsia, ligado ao Sufismo.
Ver o seu inspirado livro "Poemas Místicos” – Attar Editorial.
Para quem gosta da poesia árabe sufi, recomendo o excelente site http://www.sertaodoperi.com.br/poesiasufi/ - o mesmo contém poesias de vários autores árabes muito inspirados.

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DOIS TEXTOS DO INICIADO FERNANDO PESSOA
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DESPERTAI!
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Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo...
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem o teu ser profundo

Vem a noite, que é a tua morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorde.
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não vestes, não tens nada:
Tens só o teu corpo que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
Neófito, não há morte!

* * *


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AUTOPSICOGRAFIA
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O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

- Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888; desencarnou em 1935.
Trata-se do maior poeta português, verdadeiro ícone da poesia mundial. Junto com Camões, é um dos dois gigantes da literatura portuguesa.
Ver a “Antologia de Fernando Pessoa”.

* * *

E, finalizando essa pequena maratona literária inspirada, deixo um texto meu mesmo, que revela nas entrelinhas, pelas vias espirituais, algumas coisas sobre um desses poetas citados. Esclareço, ainda, que é uma grande ousadia de minha parte postar um texto meu logo na seqüência desses gigantes da literatura espiritual e mística da humanidade. Eles são mestres da escrita, e eu sou apenas um espiritualista esforçado tentando passar algo de bom naquilo que escrevo.





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PENSAMENTOS E SENTIMENTOS QUE VOAM NA NOITE
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Amigo, no seio da noite escutei tua canção.
Lembrei-me de ti, e o meu coração sorriu.
Senti tua presença, mesmo sem te ver.

Inspirado, pensei em escrever um poema, Mas não possuo a tua habilidade de escrever Nem tenho o teu talento de tecer as palavras Com aquelas harmonias das esferas astrais.

Então, fechei os olhos, e uma estrela surgiu À minha frente, na tela mental.
Em seu brilho veio uma inspiração,
Que no meio da luz disse-me:

"Tu és o que és!
Pedacinho estelar na carne,
Estrelinha aprendendo no mundo.
O divino feito homem,
O homem feito espírito.

Jamais esqueças de que tu és espírito.
A glória das estrelas brilha em tua fronte.
O brilho de bilhões de sóis não é páreo Para o brilho de teu corpo glorioso!

Tu sentes saudades da imensidão sideral, Mas o Eterno te colocou na Terra por um tempo.
Aceite isso com sabedoria, mas quando possível, Não deixe de voar...

A liberdade virá com o teu labor bem feito.
Para quem trabalha, um sonho de liberdade Não é uma quimera, é efeito da causa justa.
Estude e trabalhe... Não deixe de voar...

O teu caminho não é só teu,
Pois muitos melhoram com a tua melhoria.
A tua vida não é só tua, pois o Eterno
Vive contigo na morada do coração.

Mesmo os teus sonhos são compartilhados...
Por aqueles que sonham com a mesma liberdade.
Por aqueles que buscam o mesmo que tu,
E que também sentem saudades sem saber por quê.

Há laços invisíveis que ligam os espíritos, Mesmo em orbes distantes.
Há amores que se reencontram, algures...
Mesmo enquanto os corpos dormem.

Há pensamentos e sentimentos que voam na noite Ao encontro de seus pares...
Enquanto os corpos descansam,
As estrelas se encontram e se encantam.

Mesmo na Terra, é possível voar espiritualmente.
O sono é o recreio da estrela-espírito.

Mesmo a reencarnação não consegue segurar A estrelinha em tempo integral na carne.
Quando o sono afrouxa os liames carnais, Lá vai ela novamente ao encontro de seus pares.

Na abóbada sideral as estrelas se beijam.
Algumas delas estão projetadas lá temporariamente Pela ação do irmão sono.
Outras, são estrelas livres, à espera de suas irmãs.

Então, quando a saudade apertar, lembra-te:
Tu és espírito! Tu és estrela! Tu és o Eterno na carne!

Tuas irmãs livres jamais te esqueceram.
E quando o teu corpo dorme, elas vêm!
E te levam junto para a abóbada sideral.

Tu estás na Terra nesse momento,
Porque é preciso em teus estudos e experiências.
É o teu lugar, por enquanto.

Mas, não deixe de voar...
As estrelas livres, tuas irmãzinhas celestes, Estão te esperando com saudades também."

Pois esse foi o recado da estrela, meu amigo.
Gostaria de ter feito um poema em tua homenagem, Mas não tenho o teu talento para isso.
Por isso a minha irmã estelar veio dar uma força.

Com ela aprendi que os pensamentos e sentimentos Voam na noite ao encontro de seus pares.

Com essa esperança, torço para que esses escritos Voem na noite e cheguem em teu coração.

Que mesmo em planos distantes, nós possamos celebrar juntos A ação daquela Mão Invisível que teceu o Grande Mistério E incrustou na abóbada sideral as incontáveis estrelinhas, Nossas irmãs siderais, nossas companheiras de vôo espiritual.

Sim, meu amigo, possamos celebrar juntos A obra do Grande Arquiteto Do Universo, O Grande Espírito, A Grande Estrela, O Pai-Mãe de todos, Criador das estrelas e de todos nós.

Mesmo em planos diferentes agora,
Que os nossos pensamentos e sentimentos possam Voar juntos na noite ao encontro daquelas estrelas Esquecidas de sua própria natureza sideral.

Que de alguma maneira, nós possamos tocá-las em segredo.
Para lembrá-las de que é possível voar na noite em espírito.

Meu amigo, não tenho aqui a poesia de que gostaria.
Só tenho esses pensamentos e sentimentos que Voam na noite inspirados pela estrela-guia.

Aceite-os!
Pois se não tenho a tua habilidade em escrever, Pelo menos ainda consigo voar...

P.S.: "Senhor, em teus pés deposito essa guirlanda de flores astrais.
Elas cresceram no jardim do meu coração.
Foram regadas pelas lágrimas da saudade estelar, E adubadas pelo suor da sadhana*.
Foram iluminadas pelo sol e beijadas pela lua Em muitas existências.
E me ensinaram a grande lição:
Na casa do coração estamos todos juntos.
SOMOS TODOS UM SÓ!"

(Dedicado ao célebre poeta hindu Rabindranath Tagore**.)


- Wagner Borges -
São Paulo, 18 de setembro de 2003.


- Notas:

* Sadhana (do sânscrito): Disciplina espiritual.

** Enquanto escrevia, a lembrança de mais três poetas da alma vinha à mente: Rumi, Kabir e Kalil Gibran Kalil. Que os pensamentos e sentimentos estelares voem na noite até eles também.

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