VACAS MAGRAS

- por Frank - – Estou realmente chegando à conclusão de que Deus não existe! – disse Ana, olhos lacrimejados (marejados), decepção estampada no rosto – Começo a achar que tudo isso não passa de uma ilusão. Respirei fundo, não pensava em convencê-la ou dizer algo que a fizesse mudar de idéia. Afinal, também tenha (tenho ou tinha) minhas dúvidas. Porém, o que me preocupava era que Ana não era uma pessoa cética ou sem acesso ao conhecimento de como as coisas funcionam. Pelo contrário, ela era alguém profundamente espiritualizado, mas fragilizado por uma decepção. Um pedido não realizado, um milagre que não ocorrera. – Eu não vou tentar convencer você, mas acho que não é bem assim... – disse eu.
– Prefiro questionar mil vezes a continuar bancando a tola. – respondeu ela. – Você nunca se perguntou sobre a possibilidade de tudo isso que estamos experimentando ser crença, alienação, auto-hipnose ou qualquer outro truque mental, aliando (associando) nossa fome de acreditar em algo a uma divindade que nunca existiu? Sim! Já tinha pensando nisso inúmeras vezes. E se tudo fosse ilusão? Mas, toda vez em que chegava nessa fase, eu sempre tentava avaliar minhas experiências e voltava a ter certeza daquilo em que acreditava. O mundo era maravilhoso demais para ter sido obra do acaso. Havia um Criador, um Arquiteto por trás de tanta coisa bonita, mas era uma certeza intima que eu tinha e, se havia aprendido alguma coisa, depois de tanto tempo estudando religiões, era que fé é uma questão individual e cabe a cada um buscar essa certeza dentro do seu próprio coração. – Ana, pense bem. Não é justo matar Deus porque ele não fez o que pedimos. – respondi. Pedir algo a Deus? Já fazia anos que eu não me via barganhando com Deus um milagrezinho. Afinal, eu tinha tanto mais para agradecer... E toda vez que dava aquela vontade de pedir que Ele alterasse minha conta bancária ou pagasse as minhas contas, juro que batia uma vergonha tremenda. Havia tanto problema maior no mundo. Se Deus pudesse descer do céu para satisfazer algum desejo, como um gênio da lâmpada, não seria melhor pedir a paz na Terra ou água encanada para o Nordeste? Não! Não dava para pedir nada para mim, mas daquela vez tinha sido diferente, especial. Havia um amigo doente, terminal, e só um milagre poderia ajudá-lo. Ana me chamou, certa tarde, e pediu que orássemos juntos pela recuperação dele. Foi um momento forte de fé e, quando acabamos, olhamos um para o outro e dissemos, numa única voz: – Fomos ouvidos! Não fomos! O milagre nunca ocorreu. Deus não desceu do céu, nem mandou nenhum anjo para alterar nossa situação. Não houve milagre. O nosso pedido não foi escutado: o amigo se foi. Ana ficou inconsolável nos primeiros dias, até que a decepção virou revolta. – Você sabe que nunca pedi nada para mim, mas, depois de tudo o que fizemos de bom, não seria justo conseguir isso? – ela disse. – E, desde quando existe um banco das "boas ações"? Deveríamos fazer algo, sem querer nada em troca, não é? – eu respondi. – Eu sei, mas eu achei que merecíamos, pelo menos, essa intervenção, esse milagre... Sempre agradeci em minhas orações e, se pedi algo, sempre foi para que ocorresse o melhor para o nosso crescimento ou o crescimento de alguém. Como não fomos atendidos? – retrucou ela. – E como saber que o melhor não ocorreu? – eu disse – E se foi melhor não ter ocorrido nenhum milagre? – Como foi melhor assim? Você realmente acha que essa situação é justa? Ontem, eu tinha certeza que Deus faria algo, que iria ocorrer o contrário do que ocorreu. Hoje percebo que apenas me enganei. – ela argumentou. – Ana, parar de ficar pedindo é indício de maturidade espiritual. Como saber o que é melhor para nós ou para alguém? Não temos lucidez suficiente para saber o que é melhor para os outros. Não temos como olhar de fora e sacar que foi melhor não ter isso ou aquilo, especialmente quando fomos nós que não conseguimos o que queríamos. Às vezes, uma queda é a oportunidade perfeita para recobrar as forças e partir para uma nova tentativa. Não dá para controlar o universo e fazê-lo funcionar ao nosso gosto. – Você quer dizer que, se há alguém doente, não devemos pedir a Deus a sua melhora? – ela questionou. – Claro que podemos, mas a melhora, às vezes, não é exatamente aquilo que temos em mente. Talvez, ao pedirmos uma cura, estamos apenas querendo, de forma egoísta, manter aqui alguém que já deveria ter partido. Não sabemos o que é melhor ou o que deve acontecer. Pedir não significa que as coisas ocorrerão da forma que queremos. Deus sabe o que é melhor, sabe o que faz e quando fazer. – Então, para que se importar? Que importa tentar ajudar alguém, se Deus vai fazer do seu jeito, de qualquer forma? Para que fazer algo ou se importar, se a nossa ação não resultará em nada? – ela continuava questionando. – Porque talvez NÓS sejamos o milagre, Ana. Todo mundo vive dizendo que Deus não existe, porque se existisse não permitiria uma criança morrer de fome na África. Mas o que fazemos nós? Passamos todo o nosso tempo pedindo que Ele faça alguma coisa. – Mas eu fiz tudo o que eu podia e não foi suficiente. Por isso eu pedi. Se eu não puder pedir que Ele me ajude, que diferença faz ? – disse ela. – Caramba, Ana! Faz toda diferença! O seu sorriso pode não ter o poder de parar a dor de quem sofre, mas pode ajudar a pessoa a suportar essa dor de uma maneira melhor. O seu carinho pode não construir uma ponte para a outra pessoa atravessar de um lado para o outro, mas pode dar forças suficientes para que essa pessoa construa sua própria ponte e atravesse. Pedir por alguém ou pela gente não é dizer a Deus o que fazer e, sim, reafirmar a nossa fé em que tudo no final dará certo, de uma maneira ou de outra. – Deus não vai surgir aqui e mudar o mundo do jeito que a gente quer, Ana. O melhor para esse mundo vai ocorrer, quer a gente goste disso ou não, ou compreenda. O fato de você acreditar em uma força maior não fará muita diferença no universo, mas vai fazer muita na sua vida. E uma coisa eu garanto a você: tudo isso serve para provar o quanto temos uma capacidade enorme de esquecer o que já recebemos de milagres. Perco as contas de quantas vezes queríamos algo e isso veio parar misteriosamente em nossas mãos. Mas basta um único pedido não realizado ou uma resposta negativa ao que queremos para que comecemos a negar tudo aquilo em que acreditamos antes. – É muito triste saber (perceber) o quanto somos condicionados a acreditar em Deus nos momentos bacanas, mas, ao primeiro sinal de vacas magras, viramos as costas para a crença em que dizíamos ser certeza. Talvez pedir o melhor para o crescimento de outra pessoa, Ana, seja crescer internamente para sabermos aproveitar o melhor de cada situação, quer sejam as coisas que nos fazem sorrir, quer seja o que nos faz chorar. São Paulo, 06 de agosto de 2007.

Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco de Oliveira, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores. Depois de vários anos morando em Londres, ele voltou a residir em São Paulo, em fevereiro de 2005. Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos. Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista on line de nosso site e em nossa seção de textos periódicos, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br – Outros textos podem ser acessados diretamente em seu blog na Internet: http://cronicasdofrank.blogspot.com

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