1067 - A ROUPA DA MÃE VELHA

- Por Frank -
 
Vou compartilhar com você um segredo, mas é preciso que você me prometa que ele só vai ficar entre a gente, pois tem pessoa, nesse mundo, que se assusta fácil e, se não escutar ou ler sobre esse segredo direito, pode até achar que a visão que eu tive é obra do "coisa-ruim". E, por mais medo que eu tenha tido - e foi muito medo mesmo -, tudo do que eu me recordo é o que eu vou lhe contar agora: Eu vi a "Mãe Velha"!
Ela se revelou para mim. E, se eu ainda consigo me lembrar disso, deve ser porque Ela me deixou, ao menos, manter parte da lembrança. Se bem que essa memória pode ter sido distorcida por símbolos antigos - inebriados pela minha fé em qualquer coisa.
Daí, já de início, fica o meu sincero pedido de desculpas se, por algum motivo, você for conduzido a acreditar em algo do que eu acredito. A minha esperança é que você, leitor seletivo e inteligente, possa usar o seu discernimento para ir além dos meus escritos e ler nas entrelinhas o que está sendo dito e, se possível, revestir tudo com os seus próprios símbolos. Porém, peço-lhe que mantenha, ao menos, o respeito pela ideia original - esse arquétipo da "Mãe Velha", a Vó, a Preta-Veia, Mataji, Nanâ Buroquê, ou seja lá qual for o nome pelo qual você a chame...
Eu, talvez em voo espiritual, talvez em sonho, lembro-me que a minha consciência escapuliu da minha mente e foi parar bem distante, no meio de uma floresta, onde dei de cara com uma cabana de madeira, de onde saía fumaça pela chaminé, e o cheiro das folhas da mata se misturavam com um cheiro de café.
O cheiro de algo tão forte me deu conta de que eu não estava isento de corpo e, logo em seguida, o som das folhas sendo pisadas denunciava que eu estava revestido com alguma “espécie de corpo” - espiritual? sutil? astral? -, que me permitia também ouvir o canto das cigarras, os grilos e o piado da "mãe da noite", um pássaro do cerrado brasileiro com fama de bruxa.
Confesso que fiquei com medo, e me deu vontade de correr, mas, ao mesmo tempo, lembrei-me que tinha ido parar naquelas bandas por algum motivo. Daí, criei coragem e bati na porta, e a mesma se abriu, rangendo. E vi, lá dentro, sentada, uma velhinha, cujos cabelos prateados se derramavam de sua cabeça e se espalhavam pelo chão – e, ao chegarem ao mesmo, os fios se transformavam em raízes que entravam pelas frestas do assoalho de madeira.
Sentada numa cadeira de balanço, ela ia para aqui e para acolá, e a mesma cantava “nhã-iá-nhã-iá”, sem parar, sustentando o peso dessa senhora, que era do tamanho do mundo. Vestida numa bela roupa cor de rosa brilhante, ela tinha nos cabelos uma tiara de diamantes, mas os seus pés estavam descalços e sujos de lama. E, em suas mãos, ela tecia uma malha com duas agulhas de tricô, enquanto seus óculos caiam ternamente pelo seu nariz. Porém, acima deles, havia um par de olhos brancos, cegos como um caminho coberto de névoa.
“Olá!” - ela disse.
Daí, senti vergonha de a estar olhando, mas ainda deu tempo de observar no seu rosto as rugas do tempo, que pareciam contar a origem das estrelas e as experiências de todos os lugares em uma só face.
“Oi!” - respondi, sem saber o que dizer, nem como agir.
Então notei que os seus olhos brancos ganharam cor e, em cada um deles, havia a banda de uma lua, que ficava cheia quando ela sorria - e ela ria muito.
E, a cada vez que ela piscava, um pássaro, lá fora, gritava, “Salubá! Salubà!”
Eu quis logo me ajoelhar, mas ela acenou que não e me disse que existe uma diferença entre respeito e submissão, que um viajante deve aprender a se ajoelhar com o coração, não com os joelhos, para poder pisar em todo lugar. Daí, em algum ponto onde corre a nascente da minha intuição e de quem eu sou, eu a ouvi me contando a história do mundo em que vivemos, e vi uma fila de espíritos esperando-a tecer a malha da matéria que usariam para encarnar na Terra.
Ela me contou outras tantas coisas, mas disse que tudo aquilo só faria sentido lá naquela cabana, pois, tão logo eu saísse dali, toda aquela conversa viraria pó de lembrança, como o corpo que se desfaz ao fim da nossa existência no mundo da matéria...
Perguntei-lhe se poderia guardar, pelo menos, a recordação de tê-la visitado e aí ela riu... E sua gargalhada tinha o som de uma queda d'água batendo nas pedras do rio.
Então, me disse: “Você não veio me visitar, eu é que estou lhe visitando! E você esquecerá boa parte daquilo que estamos conversando. Mas, à medida em que for trilhando o seu caminho, tudo o que eu lhe disse se transformará em intuições, guiando-o, como chuva caindo...
Daí, caí - ou levantei do meu sono -, lembrando-me que eu jamais poderia esquecer aquele encontro. Afinal, eu trouxe comigo algo desse sonho: a malha da "Mãe Velha" nesse corpo que estou usando.
 
São Paulo, 11 de janeiro de 2011.
 
- Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco de Oliveira, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores. Depois de vários anos morando em Londres, ele voltou a residir em São Paulo, em fevereiro de 2005.
Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos.
Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista online de nosso site e em nossa seção de textos periódicos, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br – Outros textos podem ser acessados diretamente em seu blog na Internet: http://cronicasdofrank.blogspot.com
Texto <1067><02/02/2011>