1181 - VÉSPERA DE FINADOS

 
- Por Huberto Rohden -
 
Há tempo, muito tempo, que a idéia de morrer
Me deixa indiferente,
Sem arrepios de terror.
Hoje, porém, à vista de túmulos floridos,
Acometeu-me estranho pavor.
O que há de terrível no morrer não é morte em si.
É a idéia glacial de não mais ser amado
Pelos entes que amamos,
E que nos amavam, aqui na Terra...
Por quanto tempo eles recordarão de mim,
Após a minha partida?...
Por um mês?
Por um ano?
Por um decênio?...
No princípio, flores e lágrimas...
Depois, ainda umas reminiscências...
E, por fim, a vasta solidão
Do esquecimento...
O gélido nirvana
Do vácuo...
Não ser mais amado pelos que amamos,
Que morte horrível!
Não mais banhar-se carinhosamente
Nas pupilas de um ente querido,
Não mais ouvir o timbre da sua voz,
Não mais sentir o afago da sua mão,
Nem as pulsações do seu coração.
Que morte amaríssima, essa!
Entretanto, algo me diz e garante
Que não vou morrer essa morte mortífera...
Algo me faz adivinhar e entressentir
Que há um amor mais forte que a morte...
Que encontrarei, no Além,
Um tépido ninho de afeição,
Uma família que não me fez,
Mas que eu fiz...
Foi a família material que me fez
Mas sou eu que faço a minha família espiritual...
Não é o parentesco dos corpos que me interessa,
Interessa-me a afinidade das almas.
E essa afinidade espiritual é obra minha,
Eminentemente minha...
Eternamente minha.
É eterna como eu mesmo...
Sei que essa família que eu fiz não morre para mim,
Porque os seus membros são da "comunhão dos santos",
Envoltos e permeados de vida eterna,
De amor imortal...
 
- Nota de Wagner Borges: Esse texto foi selecionado daquele que é considerado o melhor trabalho de Rohden: “Escalando o Himalaia”.
Sobre Huberto Rohden, favor ver sua coluna no site do IPPB, no seguinte endereço específico: https://ippb.org.br/index.php?option=com_content&;view=article&id=6571&Itemid=182   
 

Texto <1181><16/06/2012>