1186 - A NAU QUE VOOU

 Por J. J. Benitez
 
Parecendo uma embarcação extenuada e alquebrada, deixei-me tombar na margem de meus dias.
E enquanto o mar da melancolia penetrava até meu mais recôndito escaninho, vi os jovens navios afastando-se, proas direcionadas para o bem e para o mal, com o ímpeto de quem sabe ser aguardado na outra margem.
Senti-me morrer.
Mas o que é verdadeiramente a morte?, perguntei aos velhos anjos do fundo do oceano de meu Espírito, os quais responderam sorridentes:
- Morrer é viver de novo. Portanto, alegre-se.
- Mas estou velho. Como poderei viver novamente? – retorqui, enquanto exibia os estragos feitos pelos anos em meu casco.
Os anjos do Espírito alçaram-me sobre a espuma de minha própria obscuridade e,
como num sonho, fizeram-me navegar nesse outro oceano, igualmente azul, que chamam de céu.
E lá embaixo vi aqueles valoros navios navegando com esforço, pesadamente.
Não compreendia como eu, velha nau dos sete mares da Vida, podia cortar os ares, como se fora um oitavo oceano.
Os anjos, soltaram as amarras desse novo e extravagante navio, e afastaram-se de mim, sorrindo. Então vi-me diante de uma luz mil vezes mais brilhante do que todos os faróis.
Mas não eram velas que me impulsionavam, e sim asas.
Soube então que meu velho casco fora milagrosamente calafetado pelo Grande Contramestre, e que seu esplendor e ousadia comparavam-se apenas a outras embarcaçãoes que, como eu, já navegavam as águas da outra vida.
E finalmente compreendi que morrer é viver de novo.
 
(Texto extraído do livro "Sonhos" - do jornalista, pesquisador e escritor espanhol J. J. Benitez – Editora Record.)

Texto <1186><04/07/2012>