1217 - ENTRE DOIS MUNDOS
- Por Huberto Rohden* -
Estendera o Eterno, de um a outro extremo, a sua potência creadora - desde
os puros espíritos até à matéria bruta.
Desde a mais alta vida intelectual - até à mais profunda negação do
intelecto. Entretanto, não atingira ainda o Eterno o extremo limite de sua divina
audácia...
Restava-lhe ainda o mais temerário e paradoxal de todos os atos - a união do
espírito e da matéria.
Seria possível fundir em um único ser a luz dos puros espíritos - e a noite
da matéria inerte?...
Reduzir a uma síntese essas duas antíteses?
E disse o Senhor: “Façamos o homem!” - e fez Deus, da substância da terra, um
corpo e inspirou-lhe na face o espírito vivente...
E ergueu-se, no meio da natureza virgem, esse paradoxo ambulante, esse
enigma anônimo, essa indefinível esfinge, semi-animal e semi-anjo – o homem...
Quando os espíritos celestes viram o homem, exultaram sobre a sua grandeza e
choraram sobre a sua miséria.
Cristalizaram-se, na alma humana, essas centelhas de júbilo e essas lágrimas
de dor - e formaram um mar imenso de doce amargura e inextinguível nostalgia.
Principiou, então, neste mundo visível, a luta entre a Luz e as trevas -
entre o Bem e o mal... A história da humanidade.
Têm os puros espíritos sua pátria - lá em cima...
Tem a matéria bruta sua sede - cá embaixo...
Mas onde está a pátria do espírito-matéria?
Na Terra? - protesta o espírito!
No Céu? - protesta a matéria!
Entre o céu e a terra? - mas lá se erguem os braços duma cruz!
É por isto mesmo que o mais humano e mais divino dos homens expirou entre o
céu e a terra - na sua pátria cruciforme.
“Não havia lugar para Ele” - em outra parte...
E é por isso mesmo que os melhores dentre os homens são sempre
crucificados... Não os compreende a Terra - nem os acolheu ainda o Céu.
E assim, entre o Céu e a Terra, vive o homem esta vida dilacerada de
angústias e paradoxos.
Sem pátria certa,
Em perene exílio,
Oscilando entre a matéria e o espírito,
Lutando,
Sofrendo,
Amando,
Até que a matéria volte à matéria,
E o espírito ao Espírito,
Sintetizando dois mundos,
Em Deus.
(Texto extraído do livro "De Alma Para Alma" - do genial filósofo brasileiro Huberto Rohden - Editora Martin Claret.)
- Nota:
* Ver a coluna dedicada a Huberto Rohden em nosso site, na seção de Multimídia - www.ippb.org.br
Texto <1217><21/11/2012>
