1287 - PRESUNÇÃO E GRANDEZA REAL

- Por Eros* -
 
Sobre verdejante relva uma violeta colorida exalava perfume.
Um animal invejoso, então, ameaçou-a:
- Esmago-te e se acaba a tua beleza.
Respondeu-lhe a flor:
- Se o fazes, abençoo-te com o meu perfume e viverei impregnada em ti.
   
                   * * *
 
Desgostoso com o brilho do pirilampo, coaxou o sapo repelente:
- Cubro-te de baba peçonhenta e apago tua luz.
O inseto pequenino sorriu e contestou:
- Sacudindo tua peçonha de sobre mim, prosseguirei brilhando.
   
                   * * *
 
A flauta, recostada num estojo e veludo, zombou de ágil rouxinol numa gaiola de frágeis talas de palmeira:
- Sou maior do que tu e mais nobre. Toda feita de prata, passeio por mãos perfumadas e recebo os beijos do artista que me sopra. E tu?
A avezita feliz, surpreendida com o motejo, redarguiu:
- De minha parte, não tenho inveja de ti. É certo que é bela e forte, enquanto sou pequeno e frágil. Apesar disso, consigo algo que jamais lograrás: sem que ninguém me sopre, eu canto.
E passando à ação, pôs-se a trinar, embevecido.
   
                   * * *
 
A vela tremeluzente, espalhando fraca luminosidade, gabou-se de haver vencido a sombra.
A estrela de primeira grandeza, fulgurante no Infinito, todavia não comentou nada.
   
                   * * *
 
A lagarta rastejante reclamava por viver naquela situação lastimável.
A vida escutou-a e deixou-a dormir.
Quando despertou, flutuava no ar como leve e feliz borboleta.

                   * * *
O regato risonho acusou a vegetação da margem porque esta lhe roubava o líquido precioso.
Arrancada, impunemente, por mãos irresponsáveis, dela o córrego sorriu, vitorioso.
Sem a defesa natural, que a sombra lhe propiciava, a ardência do Sol, por sua vez, absorveu a água, e o regato desapareceu.
   
                   * * *
 
O pavio, na lamparina, petulante, disse ao azeite em que mergulhava:
- Como te desprezo, pegajoso e desagradável que és.
O combustível calado prosseguiu, humilde, permitindo-lhe arder e iluminar, pois tal era o seu mister.
   
                   * * *
 
A soberba fenece, após o brilho ilusório, enquanto a humildade permanece e felicita.
Seja você aquele cuja importância ninguém nota, mas, quando se encontra ausente, nada funciona.
Cumpra, assim, com o seu dever, e não se preocupe com a presunção dos que estão enganados em si mesmos.
Você é vida! Aja com inteireza e nunca passará.
 
(Recebido espiritualmente por Divaldo Pereira Franco - Texto extraído do excelente livro “Em Algum Lugar No Futuro” - Leal Editora).
 
- Nota:
* Eros - benfeitora espiritual que adotou o pseudônimo de Eros - palavra grega que significa ”Amor” -, para manter-se no anonimato
 

Texto <1287><04/10/2013>