1308 - O SURFISTA DA ESCURIDÃO

- Por Frank -
 
Diga que energia vem de você, e lhe direi quem você é...
Nem sempre é tão simples assim.
Se não há duvidas em relação ao perfume de sândalo nas aparições dos devas*, ou na fragrância das mirras nas festas do divino dos Santos Reis, eis que, numa meditação muita intensa, senti que minha tela mental se abria e, em lugar do verde-esmeralda com tons dourados das frequências altas do Astral, surgiram umas cores vermelhas e pretas, tão umbralinas quanto as ondas de funk vindo do quintal do vizinho.
Junto com tais cores de animar flamenguistas e fazer tremer religiosos, veio também um cheiro podre e uma onda de sentimentos muitos ruins, bem malévolos, que me arrepiavam na alma e me fizeram abrir o evangelho de preces memorizadas, para me defender do perigo de atrair, sem querer, com as minhas práticas, as energias densas (as cobras mal criadas que viessem atrapalhar o meu trabalho de luz e o meu estudo da alvorada).
Se não era o diabo em pessoa, era algum emissário dele. Então, armei-me com tudo o que pude: escudos psíquicos dos mais diversos, levantei e gritei:
“Alto lá, eparrei! Que esse corpo é fechado e essa casa segue a lei dos trabalhos espirituais do Cristo, meu Rei.”
E a criatura olhou-me do alto da sua envergadura, olhos em chamas e peito nu; mais parecia um negrão, mas era um escuro para lá de hindu... Trazia um tridente nas mãos, mas não era Shiva nem tão pouco o tal do danado do “Cão”; nos pés, além de sandálias, havia uma espécie de tábua, onde ele apoiava os pés, como se surfasse naquelas ondas do mal.
Ele, então, falou: “Pensei que você era espiritualista e buscador de todas as esferas, incluindo as cinzas. Mas percebo que me enganei, você ainda é um frangote e não sabe ver além das aparências, nem filtrar o que percebe além do que lhe dizem as suas ventas.”
A voz dele tinha som de trovão e era tão ou mais ameaçadora que os esturros de um tigre. Dava medo de ouvir, mas eu precisava escutar: 
“Os anjos estão nas alturas onde estão e os santos em seus altares. Mas aqui embaixo é Exu que libera as almas dos corpos; é Exu que tira a desarmonia dos lares.
Não nos vestimos de águia, nem nos disfarçamos de sábias corujas; somos os urubus da vida, rasgando as carnes dos egos que não enxergam a verdade mais pura.
Se engana quem passa pelas portas e não vê nada mais que madeira e ferro, pois estamos em cada porta e, nesse plano, somos quem revela os mistérios.
Então, “vagamundo” da Terra, se você quiser mesmo descobrir o que há além dela, terá que ter a nossa permissão, ou nunca conseguirá sentir nada além daquilo que você carrega entre as pernas.”
E, assim, o Surfista da Escuridão se foi... Deixando um rastro luminoso na minha consciência, além de uma vergonha danada por não reconhecer quem trabalha para a luz, mesmo com tantos anos de estudo de estrada.
 
São Paulo, 03 de dezembro de 2013.
 
- Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco de Oliveira, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores. Depois de vários anos morando em Londres, ele voltou a residir em São Paulo, em fevereiro de 2005.
Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos.
Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista online de nosso site e em nossa seção de textos periódicos, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br – Outros textos podem ser acessados diretamente em seu blog na Internet:  http://cronicasdofrank.blogspot.com 
 
- Nota do Texto:
* Devas – do sânscrito – divindades; seres celestes; seres de luz.

Texto <1308><22/01/2014>