1324 - SAMADHI - O AMOR EM AÇÃO...

(O Ensinamento de Krishna, o Senhor dos Olhos de Lótus)
 
Ainda era noite quando o meu coração ganhou asas...
E quando a aurora surgiu, o brilho era em meus olhos.
Então, eu escutei o som da flauta d’Ele.
Miríades de estrelas dançaram na minha frente.
Elas me disseram: “Venha, entre nas ondas do Samadhi!”
Eu fui, em Espírito e Verdade, para dentro da Luz...
E isso era dentro do meu olho espiritual.
Ali, dentro de um turbilhão de cores vivas, Ele apareceu.
Sim, era Krishna, o Senhor dos Olhos de Lótus, o Mestre do Darma.
Rindo, Ele me disse: “O Samadhi não é uma técnica iogue, é expressão do Amor.
Pois, de que adianta elevar a Kundalini pela coluna, se o coração não despertar?
Sem Amor, o iogue fica estéril espiritualmente, e a arrogância o possui...
Sem a Luz guiando-o em sua sadhana, os seus esforços são filhos de Maya.
Sem a rendição do seu ego, sua senda torna-se perigosa e inflamada de empáfia.
Sem o fogo de Viveka, as palhas de suas tolices jamais serão queimadas.
Sem flexibilidade em seus sentimentos, os seus chacras serão opacos.
Sem aspirações superiores, o seu pranayama será só ação mecânica e sem viço.
Yoga é união! Samadhi é Amor. E a Kundalini é a música celeste nos nádis.
Dhyana é transbordamento de serenidade, abraçando secretamente o mundo.
Yoga é ação correta nos três mundos – é harmonia das três gunas...
Prathyahara não significa isolar-se do mundo, é somente ir para dentro do Ser...
Para descobrir o Eterno em seu próprio coração – para ver o brilho de Prakash.
Dharana não é só o treinamento do foco mental, mas a educação do pensamento.
Se o iogue não perdoa, suas kriyas de nada adiantam, pois há sujeira em seu peito.
Se há dureza em seu campo emocional, os espíritos inferiores já o dominaram.
Narananda, continue projetando as setas do discernimento na senda espiritual...
E nunca se esqueça de que todos os seres são irmãos! E que Samadhi é Amor.”
Ele me disse isso, enquanto eu mergulhava na Luz Pura de Ananda.
Eu vi camadas de estrelas desdobrando-se à minha frente, na festa da Vida.
Escutei aos Gandharvas realizando a canção das esferas espirituais...
Para onde eu olhava, eu só via o Olhar de Krishna em meio às estrelas.
E, dentro de mim, reverberava a risada d’Ele em ondas de sukha.
Ele, o Senhor dos Olhos de Lótus, que me ensinou que Samadhi é Amor em ação.
 
P.S.:
Ah, o meu coração ganhou asas...
Ainda era noite, mas Ele veio me despertar.
E raiou a aurora do Samadhi.
Eu me derreti no fogo de viveka de Krishna.
Sim, quando se escuta o som de Sua Flauta, tudo muda.
E o Amor faz a União acontecer.
Então, o mantra do iogue é um só: “Gratidão!”
 
(Dedicado a Paramahamsa Ramakrishna, Sry Aurobindo, Ramana Maharishi, Swami Sivananda, Radha, Mataji, Babaji, Lahiri Mahasaya, Sry Yuketswar, Paramahamsa Yogananda, Sry Hariharananda – e também aos rishis que inspiraram os ensinamentos dos Upanishads).
 
Paz e Luz.
Gratidão.
 
- Wagner Borges - mestre de nada e discípulo de coisa alguma.
São Paulo, 17 de dezembro de 2013.
 
- Notas:
Para facilitar a compreensão das expressões oriundas do sânscrito, deixo um pequeno glossário na sequência.
- Samadhi: estado de consciência cósmica; expansão da consciência.
- Yoga (Ioga): união.
- Darma (Dharma): dever, missão, programação existencial, mérito, bênção, ação virtuosa, meta elevada, conduta sadia, atitude correta, motivação para o que for positivo e de acordo com o bem comum.
- Sadhana: disciplina iogue; disciplina espiritual.
- Viveka: discernimento espiritual.
- Pranayama: práticas iogues respiratórias e bioenergéticas.
- Prathyahara: interiorização (e remoção da influência sensorial).
- Dharana: concentração.
- Dhyana – meditação.
- Kriyas: ações de purificação; práticas iogues de limpeza e purificação.
- Ananda: bem-aventurança; êxtase espiritual.
- Narananda: o homem portador da bem-aventurança celeste entre os homens; esse era um dos nomes de Arjuna, principal discípulo de Krishna. Por extensão, significa um trabalhador espiritual ligado às vibrações de Krishna.
- Gandharvas: cantores celestes; devas (divindades) da música; nos Vedas, essas divindades revelam aos mortais os arcanos espirituais do Céu e da Terra.
- Sukha: estado de contentamento espiritual.
- Prana: sopro vital; força vital; energia.
- Rishis: sábios espirituais; mestres da velha Índia; mentores dos Upanishads.
- Nádis: condutos sutis por onde circulam as energias.
- Maya: ilusão; tudo aquilo que é mutável, que está sujeito à transformação por diferenciação.
- Prakash: luz espiritual; luz do eterno.
- Gunas: a energia manifestada nos planos fenomênicos. Apresenta-se na natureza como três gunas  (qualidades):
* Rajas - atividade, movimento, paixões. Tudo o que se refere à rajas é considerado rajásico. Exemplos: agitação, raiva, ansiedade, fundamentalismos e exageros de qualquer espécie.
* Tamas - inércia. Tudo o que se refere à tamas é considerado tamásico. Exemplos: falta de motivação, medo, ignorância e bloqueios de qualquer espécie.
* Sattva - equilíbrio, pureza. Tudo o que se refere à sattva é considerado sattvico. Exemplos: paz interior, equilíbrio emocional e energético, sentimentos elevados, lucidez, discernimento e manifestações equilibradas.
- Mantra: palavra oriunda de manas: mente; e tra: controle; liberação – Literalmente, significa "Controle ou liberação da mente".
Determinadas palavras evocam uma atmosfera superior que facilita a concentração da mente e a entrada em estados alterados de consciência. Os mantras são palavras dotadas de particular vibração espiritual, sintonizadas com padrões vibracionais elevados. São análogos às palavras-senhas iniciáticas que ligam os iniciados aos planos superiores. Pode-se dizer que os mantras são as palavras de poder evocativas de energias superiores. Como as palavras são apenas a exteriorização dos pensamentos revestidos de ondas sonoras, pode-se dizer também que os mantras são expressões da própria mente sintonizada em outros planos de manifestação.
- Chacras: são os centros de força situados no corpo energético e têm como função principal a absorção de energia - prana, chi -, do meio ambiente para o interior do campo energético e do corpo físico. Além disso, servem de ponte energética entre o corpo espiritual e o corpo físico.
  Os principais chacras são sete – que estão conectados com as sete glândulas que compõem o sistema endócrino: coronário, frontal, laríngeo, cardíaco, umbilical, sexual e básico.
- Kundalini: significa literalmente "enroscada". Esse nome deve-se ao seu movimento ondulatório que lembra o movimento de uma serpente. Daí a expressão esotérica "fogo serpentino". Ela também é chamada pelos iogues de "Shakti", a força divina aninhada na base da coluna.
Kundalini nada tem a ver com o sexo diretamente, muito embora seja a energia que ativa e vitaliza a sexualidade. Devido à prática de exercícios tântricos que envolvem a contenção do orgasmo, quando esse conhecimento chegou ao Ocidente foi logo desvirtuado. Hoje, esse tema surge associado a rituais e posturas sexuais aqui no Ocidente. No entanto, o despertar da kundalini é um processo puramente espiritual e energético em essência. Envolve a ativação dos chacras, principalmente do chacra cardíaco, que equilibra e distribui corretamente o fluxo ascendente da shakti ao longo dos nádis. Não significa acender um foguete esotérico no traseiro e decolar pelos nádis ao longo da coluna, como muita gente imagina. "Acender" não significa necessariamente "ascender".
O estudo da Kundalini envolve o conhecimento aprofundado dos chacras, dos nádis que correm ao longo da coluna - ida, pingala e sushumna -, e das glândulas endócrinas, bem como um conhecimento básico dos yantras e bijas-mantras específicos para sua ativação.
Sugiro ao leitor interessado no tema que adquira o ótimo livro “Teoria dos Chacras” – Editora Pensamento -, do pesquisador japonês Hiroshi Motoyama.
Obs.: Deixo na sequência dois texto antigos, com alma oriental, que acrescentarão muito a esses escritos de hoje.
 
 
 A LIÇÃO DO IOGUE 
 
Sentado no tapete vermelho do muladhara está um iogue chorando.
Ele tentou ascender a shakti, mas só acendeu o fogo do orgulho.
Ele queria obter os siddhis sagrados, mas foi despertado por sua própria ambição.
Ele almejava o samadhi, mas só encontrou um céu de arrogância em si mesmo.
Ele queria fazer uma viagem espiritual, mas estacionou na própria impotência.
Humilhado, ele se pergunta o porquê do fracasso.
Tanta disciplina e ascetismo não adiantaram, pois seu orgulho era maior.
Ele medita, mas até o prana foge ao seu controle.
Arrasado, ele ergue a mente e clama aos céus a solução de seu dilema.
Enquanto isso, a Mãe Divina observa-o ternamente.
Ela sabe que a derrota do iogue é sua verdadeira vitória.
Ele ainda não sabe disso, mas o tempo lhe ensinará que a Luz não obedece ao ego, somente ao Amor.
Quando ele arrefecer sua ambição e dobrar-se aos desígnios superiores, a shakti o impulsionará para cima alegremente...
Ela cantará com ele na viagem pelos nádis luminosos.
Ela o levará até o céu em seu coração e depois o guiará a cidade de Brahman no lótus das mil luzes.
Ela beijará seus sonhos e o ajudará nos caminhos da realidade.
Com humildade, ele sorrirá e abençoará o dia em que foi derrotado por si mesmo.
Ele saberá que o tempo todo a Mãe e ele eram um só!...
 
- Wagner Borges - mestre de nada e discípulo de coisa alguma.
 
- Notas:
Para facilitar a compreensão das expressões oriundas do sânscrito, deixo um pequeno glossário na sequência.
- Muladhara: nome pelo qual os iogues denominam o chacra da base da coluna.
- Shakti: força divina.
- Siddhis: poderes parapsíquicos.
- Samadhi: expansão da consciência; estado de consciência cósmica.
- Prana: sopro vital; força vital; energia.
- Nádis: condutos sutis de transporte energético.
- Brahman: o Supremo; O Absoluto; Deus; O Grande Arquiteto Do Universo; O Grande Espírito; O Todo que está em tudo!

Texto <1324><26/03/2014>