1389 - NETI, NETI...

NETI, NETI...
(Texto postado originalmente na lista SAK - YES da internet)*
(Esses escritos respondem a pergunta de um dos participantes da lista que escutou a expressão “neti, neti” durante o programa “Viagem Espiritual”)**
A expressão é essa mesma: “neti, neti”, oriunda do sânscrito antigo***.
Significa algo que sentimos, mas não conseguimos descrever com as palavras e nem entender só com o intelecto. É algo que não se entende com a mente, mas se compreende com o coração.
Há muitas coisas neti, neti na vida. Por exemplo: o Amor.
Quem pode explicá-lo intelectualmente?
Que ciência pode desvendar os seus mistérios?
O certo é o que se sente, mas não dá para explicar.
Outro exemplo: quem tem filhos sabe do Amor que se abre no coração quando esses pequeninos chegam. É algo que só é percebido integralmente quando se tem um. Parece que o coração se derrete de Amor por eles... E não há como explicar isso para quem não teve um filho na prática. Pode-se até escrever um livro sobre educação e outras coisas sobre crianças, mas só tendo uma para sentir isso, não dá para expor em palavras que sentimento é esse. Logo, é neti, neti.
Outras coisas que são neti, neti: imortalidade do espírito, consciência cósmica e Deus, o “Neti, Netão”, o maior Neti, Neti de todos.
Mantidas as devidas proporções, o Amor que sentimos pela música do Yes é neti, neti. Como explicá-lo para os outros? É algo que se sente e faz viajar no som. Mas, quem pode explicar intelectualmente o prazer de ouvir e viajar na Yesmusic?
O Roger (vocalista da banda cover Yessongs e participante da lista), por exemplo, estuda música e canto. Ele precisa de sua inteligência para entender o que faz. No entanto, duvido que ele possa explicar o que se passa em seu coração na hora em que se torna um canalizador vocal das letras do Yes que ele tanto ama. Ali, ele é possuído por um Amor que o faz gostar da canção e dar o melhor por ela.
Se não fosse por esse Amor, o verdadeiro neti, neti nos bastidores de sua alma, ele não se esforçaria tanto nisso. A técnica do canto ele pode explicar e dar aulas, mas o Amor que ele sente nisso, é neti, neti e não dá nem mesmo para falar, quanto mais explicar. Então, só resta cantar, cantar e cantar...
A vida mesma é neti, neti. É um grande mistério, que só se descobre vivendo... E aprendendo, para se compreender, um dia, que as maiores verdades podem ser silenciosas e já habitarem em nossos corações. Mas, essas verdades são neti, neti.
Paz e Luz.
- Wagner Borges - mestre de nada e discípulo de coisa alguma.
São Paulo, 13 de abril de 2001.
- Notas:
* O SAK é uma lista da Internet organizada por fãs do Yes (uma das grandes bandas inglesas de rock progressivo).
Obs.: Ver o meu artigo “Matéria Sobre o Disco do Yes: Tales From Topographic Oceans”, postado no seguinte endereço específico:
** O programa “Viagem Espiritual” está no ar desde 1999 – e vai ao ar todos os domingos, das 12h30min às 13h, na Rádio Mundial de São Paulo – 95.7 FM.
*** Neti Neti - do sânscrito – “Não isso, não isso!”. Ou, “Isso não é isso, isso não é aquilo”. Trata-se de uma expressão hinduísta para as coisas espirituais que não podem ser descritas em palavras ou explicadas convencionalmente. Por exemplo: o mestre estava vivenciando um samadhi (expansão da consciência, estado de consciência cósmica). A Luz havia ascendido do seu chacra cardíaco até o chacra coronário e expandido sua consciência aos níveis do plano mental puro, além do espaço e do tempo.
Percebendo-o naquele estado consciencial superior, o discípulo perguntou-lhe:
“Mestre, o senhor pode me explicar o que está sentindo?”
Ele respondeu: “O que estou vivenciando não pode ser explicado pelas palavras.
Como explicar o Amor que viaja além do tempo e do espaço e que mora nos corações?
Como classificar aquela Luz onipresente e transcendente que é a causa de tudo?
Como falar do que transcende a visão limitada do intelecto humano?
Como descrever a sensação de ser um surfista cósmico deslizando pelas ondas da bem-aventurança?
Como falar de algo que só se compreende no silêncio e que é pura consciência?”
O mestre olhou para o discípulo e seus olhos pareciam duas estrelas. Uma onda de Amor silencioso interpenetrou o discípulo e ele sentiu-se alçado às praias do infinito.
Então, ele compreendeu o que a linguagem humana não pode expressar. E pensou:
“Se alguém perguntar-me o que estou vivenciando, só responderei que é neti neti!”
Da mesma forma, quando perguntavam a Sidarta Gautama, o Buda, sobre o Divino, ele ficava em silêncio. Ele sabia que o ser humano não tinha noção exata nem sobre sua própria consciência, quanto mais da consciência cósmica do Todo.
Ele sabia que não havia condições do Ser relativo descrever o Absoluto. Por isso, ele não respondia, pois era algo neti neti.
Inclusive, alguns religiosos radicais chegaram a insinuar que o Buda era ateu, justamente porque ele se recusava a exprimir em palavras o infinito além de qualquer descrição convencional.
Engraçado. Enquanto digito essas linhas, a minha segunda filha, Maria Luz (que tem seis anos), está tentando explicar-me sobre os novos episódios do “Dragon Ball Z” e que o Goku (personagem principal do desenho e herói da série) vai pegar o Friza (vilão do desenho e que sempre ressurge para aprontar) de jeito. Não entendi nada. Acho que isso também é neti neti.
E mais: sei que mais tarde terei que assistir junto com ela a vários episódios de “Pokémon” e “Digimon”. E entender como as crianças conseguem saber os nomes desses bichos e suas fases de evolução é tarefa difícil, é neti neti.
Se ainda fosse “A Vaca e o Frango”, “Johnny Bravo” ou o “Tom e Jerry”, a tarefa seria fácil, mas encarar o Bulbassauro, o Pikachú, o Charmander, o Greymon, o Piomon e outros é tarefa muito complicada. Acho que isso é uma espécie de iniciação neti neti.
Ah, que saudade do “Zé Colméia”, da “Tartaruga Touché”, do “Nacional Kid” e do “Robô Gigante”.
Texto <1389><06/02/2015>
