894 - ESTRELAS NOS OLHOS – FOGO DO ESPÍRITO II

No centro da noite eu escuto um sussurro em meu coração.
Algo invisível desce do céu e me convoca para escrever.
Tranqüilo, atendo ao chamado e abro minha mente ao Alto.
Então, uma luz entra em mim... Como um Fogo do Espírito.
E eu, mesmo no mundo, me torno médium da atmosfera celeste.
Não sei como ou por que; só sei que é preciso escrever...
E que palavras serão essas, que só o céu sabe dizer?
E que amor é esse, que nada diz, mas tudo transforma?
E que fogo é esse, que ama, mas não abrasa?
E essa luz, que ilumina sem ofuscar e diz tanto, sem falar?
Ah, poeta! O fogo do céu está aqui.
E eu não sou mestre de nada, nem de mim mesmo; sou só betume.
Mesmo assim, entrego-me ao Grande Amor, como você fez.
E que Ele guie minhas mãos e meu coração, como um lírio do campo.
Como a sarça ardente iluminando a noite escura dos homens.
 
* * *
Jesus era lindo como uma manhã ensolarada.
Como um pedacinho do céu entre os homens.
Veio de forma simples e generosa, no seu natural.
Ele calçava sandálias, mas deixava pegadas de estrelas.
Seu sorriso era franco e seu olhar tinha o brilho do Espírito.
Mais do que na aparência, Ele olhava o coração dos homens.
Ele via a luz de cada um, sem máscaras, em espírito e verdade.
E tudo compreendia. A todos amava. As crianças e os animais o adoravam.
E, Ele mesmo, parecia uma criança, sem malícia, e cheio de lindos sonhos.
Ah, Ele gostava de tomar banho de chuva e brincar com os espíritos da natureza.
O vento o atendia, e Ele girava, dançando e cantando na língua dos devas.
E quem diria que ali estava um pedacinho do céu em forma de homem?
E como Ele agüentava tanto amor em seu coração?
Ah, poeta! Você, com seus grandes olhos, pode me ensinar sobre isso?
Você, que tanto amou, e enxergou na noite o que poucos viram.
Sei que palavras não dizem muito disso, por isso olho em seus olhos.
Mesmo em planos diferentes, eu vejo você, pois também enxergo na noite.
E em seu olhar, eu vejo o d’Ele, olhando a nós dois, no mesmo amor.
E o pó de estrelas cai entre nós, por obra e graça d’Ele...
E os homens não vêem; muitos choram, por dentro, perdidos na noite das ilusões.
E aqui, no centro da noite, o doce olhar d’Ele é sarça ardente em nós.
E eu não sei mais o que dizer, meu amigo. Só vejo os seus olhos brilhando na noite...
E o olhar d’Ele no seu, no silêncio que diz tudo, dentro do coração.
Ah, poeta, grande místico! O amor fez os seus olhos se tornarem sóis.
E eu, aqui na Terra, vejo o seu brilho por entre os planos, por obra e graça d’Ele.
E o olhar d’Ele no seu, no silêncio que diz tudo, dentro do coração.
O pó de estrelas cai... E eu escrevo. E meus pensamentos abraçam o mundo, por Ele.
Pois eu vejo na noite... O olhar d’Ele no seu olhar e, agora, também no meu.
E tudo vira pó de estrelas... Sim, homens e espíritos, tudo pó de estrelas, d’Ele.
E, talvez, só os lírios do campo é que compreendam isso...
Quando o olhar de Jesus desce sobre o olhar do homem, tudo muda!
A noite escura vira sol e o grande poeta ri, por entre os planos.
E nós nos olhamos, e só vemos o olhar do Rabi, rindo junto e dizendo, mais uma vez:
“Olhai os lírios do campo...”
 
P.S.: Ah, poeta! Meu lar virou sol da meia-noite.
O Fogo do Espírito desceu aqui; e eu sou apenas betume.
Você passou silenciosamente por isso, tantas vezes... E, agora, é a minha vez.
Então, me diga: “Como um pequeno betume agüenta um Grande Amor em seu coração? E que fogo é esse, que arde sem abrasar e faz pensar no Todo que está em tudo?”
E, se as palavras não dizem muito sobre isso, então, deixe-me apenas olhar em seus olhos, de espírito a espírito, para aprender sobre a arte de olhar a vida com o olhar de Jesus, e ver o Divino em cada ser.
 
(Dedicado a Khalil Gibran**). 
 
- Wagner Borges – betume no fogo do espírito.
 
São Paulo, 08 de novembro de 2008.
 
- Notas:
* A primeira parte desse texto está postada no site do IPPB – www.ippb.org.br –, no seguinte endereço específico: https://ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=5641.
** Khalil Gibran (1883-1931) - ensaísta filosófico, romancista, poeta e pintor americano de origem libanesa, Gibran - cujo nome completo em árabe era Jubran Khalil Jubran - produziu uma obra literária marcada pelo misticismo oriental, que alcançou popularidade em todo o mundo. Suas obras mais conhecidas são: "O Profeta" e "Jesus - O Filho do Homem".

Texto <894><12/11/2008>