929 - EU OUVI DIZER
“Estou dando o melhor de mim”, ele disse, “porém, mais do que isso não é possível transferir por meio de palavras. Se eu puder fazer você entender apenas esse tanto: existe muito mais na vida do que as palavras podem conter; se eu puder convencê-lo de que há algo mais do que sua mente conhece, isso é suficiente. Então a semente está plantada”.
Por toda a vida, Gautama Buda nunca permitiu que escrevessem o que ele dizia. Seu motivo era que, se alguém escrevesse, a atenção da pessoa ficaria dividida e ela deixaria de ser total. Ela precisaria ouvir e escrever, e o que ele estava dizendo era tão sutil que, a menos que ela fosse total, perderia a mensagem. Assim, em vez de escrever, ela deveria tentar, com toda sua totalidade e intensidade, abordar seu coração e deixar que a mensagem mergulhasse dentro de si.
Ele falou por 42 anos e, após a morte dele, a primeira tarefa foi a de anotar por escrito tudo de que os discípulos se lembravam; senão, tudo estaria perdido para a humanidade. Eles fizeram um grande serviço, e também um grande desserviço. Eles escreveram coisas, mas vieram a perceber um fenômeno estranho: cada um ouviu algo diferente. Suas memórias, suas lembranças, não eram as mesmas.
Surgiram 32 escolas proclamando: “Foi isso o que Buda disse...” Apenas um homem, um homem a ser lembrado para sempre, seu discípulo mais íntimo, Ananda, que nem mesmo era iluminado antes da morte de Buda... Devido à sua humildade, sabendo que “Eu não era iluminado, então como eu poderia ouvir exatamente o que vinha de uma consciência iluminada? Eu interpretarei, misturarei com meus próprios pensamentos, darei minha própria cor, minha própria nuance. Não posso carregar em mim o mesmo significado original, pois ainda não tenho aqueles olhos que podem ver, aqueles ouvidos que podem ouvir”. Devido à sua humildade, as coisas de que ele se lembrou e sobre as quais escreveu se tornaram as escrituras básicas do Budismo, e todas elas começam com: “Ouvi Gautama Buda dizer...”
E todas as 32 escolas filosóficas foram aos poucos sendo rejeitadas, e seus membros eram grandes eruditos, muito melhores do que Ananda, muito mais capazes de interpretar, de dar significados às coisas, de criar sistemas a partir de palavras. E a razão dessa rejeição foi que elas omitiram um começo simples: “Ouvi...” - Elas diziam: “Gautama Buda disse...”; a ênfase estava em Gautama Buda.
A versão de Ananda é a versão universalmente aceita. Estranho... havia iluminados, mas eles permaneceram em silêncio, pois o que escutaram não era possível ser expresso. E havia não-iluminados, gênios da filosofia, muito articulados, e eles escreveram grandes tratados, mas não foram aceitos. E a pessoa que não era iluminada, que não era um grande filósofo, mas apenas um humilde zelador de Gautama Buda, teve suas palavras aceitas. A razão é este começo: “Ouvi...” - Não sei se ele estava ou não dizendo isso. Não posso me impor sobre ele. Tudo o que posso dizer é o que ecoou em mim. Posso falar sobre a minha mente e não sobre o silêncio de Buda.
(Texto extraído do excelente livro “Buda – Sua Vida e Seus Ensinamentos” – Osho – Editora Cultrix.)
- Nota de Wagner Borges: Osho (Bhagwan Srhee Rajneesh; 1931-1990) foi um famoso guru indiano, que, entre as décadas de 1960-1980, viajou pela Índia e por diversos países levando os seus ensinamentos conscienciais, polêmicos e profundos, libertários e inteligentes e, por isso, foi compreendido por muitos, e incompreendido por outros.
Particularmente, gosto muito dos seus ensinamentos e extraio muita coisa boa deles. Tenho vários dos seus livros - o meu preferido é o “Sementes de Mostarda”, onde ele interpreta magistralmente o sermão da montanha de Jesus -, e penso que suas idéias estavam muito à frente de seu tempo e, por isso, foram tão mal compreendidas pelas pessoas. Isso não significa que tudo em seu trabalho foi ótimo, pois muitos exageros foram cometidos, principalmente por grupos de discípulos que se enrolaram bastante ao confundirem suas idéias e fazerem dele o que ele menos queria: torná-lo um guru - apegando-se à sua figura de iluminado e isento de falhas humanas, como qualquer outro ser humano teria.
Finalizando, deixo um trecho dele que evidencia bem isso que estou comentando aqui:
“Nunca seja inspirado por ninguém.
Permaneça aberto.
Quando você ver um lindo pôr do sol,
Desfrute essa beleza;
Quando ver um Buda,
Desfrute a beleza do homem,
Desfrute o silêncio, desfrute a verdade
Que o homem realizou,
Mas não se torne um seguidor.
Todos os seguidores estão perdidos.”
- Osho –
Obs.: Há diversos textos dele postados na seção de textos conscienciais da revista on line de nosso site – www.ippb.org.br.
Texto <929><13/05/2009>
Por toda a vida, Gautama Buda nunca permitiu que escrevessem o que ele dizia. Seu motivo era que, se alguém escrevesse, a atenção da pessoa ficaria dividida e ela deixaria de ser total. Ela precisaria ouvir e escrever, e o que ele estava dizendo era tão sutil que, a menos que ela fosse total, perderia a mensagem. Assim, em vez de escrever, ela deveria tentar, com toda sua totalidade e intensidade, abordar seu coração e deixar que a mensagem mergulhasse dentro de si.
Ele falou por 42 anos e, após a morte dele, a primeira tarefa foi a de anotar por escrito tudo de que os discípulos se lembravam; senão, tudo estaria perdido para a humanidade. Eles fizeram um grande serviço, e também um grande desserviço. Eles escreveram coisas, mas vieram a perceber um fenômeno estranho: cada um ouviu algo diferente. Suas memórias, suas lembranças, não eram as mesmas.
Surgiram 32 escolas proclamando: “Foi isso o que Buda disse...” Apenas um homem, um homem a ser lembrado para sempre, seu discípulo mais íntimo, Ananda, que nem mesmo era iluminado antes da morte de Buda... Devido à sua humildade, sabendo que “Eu não era iluminado, então como eu poderia ouvir exatamente o que vinha de uma consciência iluminada? Eu interpretarei, misturarei com meus próprios pensamentos, darei minha própria cor, minha própria nuance. Não posso carregar em mim o mesmo significado original, pois ainda não tenho aqueles olhos que podem ver, aqueles ouvidos que podem ouvir”. Devido à sua humildade, as coisas de que ele se lembrou e sobre as quais escreveu se tornaram as escrituras básicas do Budismo, e todas elas começam com: “Ouvi Gautama Buda dizer...”
E todas as 32 escolas filosóficas foram aos poucos sendo rejeitadas, e seus membros eram grandes eruditos, muito melhores do que Ananda, muito mais capazes de interpretar, de dar significados às coisas, de criar sistemas a partir de palavras. E a razão dessa rejeição foi que elas omitiram um começo simples: “Ouvi...” - Elas diziam: “Gautama Buda disse...”; a ênfase estava em Gautama Buda.
A versão de Ananda é a versão universalmente aceita. Estranho... havia iluminados, mas eles permaneceram em silêncio, pois o que escutaram não era possível ser expresso. E havia não-iluminados, gênios da filosofia, muito articulados, e eles escreveram grandes tratados, mas não foram aceitos. E a pessoa que não era iluminada, que não era um grande filósofo, mas apenas um humilde zelador de Gautama Buda, teve suas palavras aceitas. A razão é este começo: “Ouvi...” - Não sei se ele estava ou não dizendo isso. Não posso me impor sobre ele. Tudo o que posso dizer é o que ecoou em mim. Posso falar sobre a minha mente e não sobre o silêncio de Buda.
(Texto extraído do excelente livro “Buda – Sua Vida e Seus Ensinamentos” – Osho – Editora Cultrix.)
- Nota de Wagner Borges: Osho (Bhagwan Srhee Rajneesh; 1931-1990) foi um famoso guru indiano, que, entre as décadas de 1960-1980, viajou pela Índia e por diversos países levando os seus ensinamentos conscienciais, polêmicos e profundos, libertários e inteligentes e, por isso, foi compreendido por muitos, e incompreendido por outros.
Particularmente, gosto muito dos seus ensinamentos e extraio muita coisa boa deles. Tenho vários dos seus livros - o meu preferido é o “Sementes de Mostarda”, onde ele interpreta magistralmente o sermão da montanha de Jesus -, e penso que suas idéias estavam muito à frente de seu tempo e, por isso, foram tão mal compreendidas pelas pessoas. Isso não significa que tudo em seu trabalho foi ótimo, pois muitos exageros foram cometidos, principalmente por grupos de discípulos que se enrolaram bastante ao confundirem suas idéias e fazerem dele o que ele menos queria: torná-lo um guru - apegando-se à sua figura de iluminado e isento de falhas humanas, como qualquer outro ser humano teria.
Finalizando, deixo um trecho dele que evidencia bem isso que estou comentando aqui:
“Nunca seja inspirado por ninguém.
Permaneça aberto.
Quando você ver um lindo pôr do sol,
Desfrute essa beleza;
Quando ver um Buda,
Desfrute a beleza do homem,
Desfrute o silêncio, desfrute a verdade
Que o homem realizou,
Mas não se torne um seguidor.
Todos os seguidores estão perdidos.”
- Osho –
Obs.: Há diversos textos dele postados na seção de textos conscienciais da revista on line de nosso site – www.ippb.org.br.
Texto <929><13/05/2009>
