LOUCO DE AMOR

Eu estava caminhando pelo Hyde Park em meu horário de almoço, quando resolvi ouvir os loucos da Esquina dos Palestrantes ( Speaker´s Corner), um lugarzinho do parque onde qualquer um sobe num banquinho e faz sua palestra, seu discurso ou sua pregação para quem quiser ouvir. Os palestrantes levam realmente a sério o que fazem, e precisam disputar os ouvintes aos gritos, uma vez que, às vezes, há mais gente falando do que escutando.

O que se vê é um desfile dos tipos mais absurdos falando dos assuntos mais loucos que se possa imaginar. Desde o velho muçulmano com o Alcorão na mão e uma bandeira da Palestina na outra, até o típico pastor dominical falando sobre o apocalipse.

Entre a mulher que foi abduzida por um ET e a senhora que luta pelo fim da caça à raposa, acabei em frente ao palestrante que falava sobre Anjos.

Ao lado da sua cadeira, quadros que aparentemente tinham sido pintados por eles, mostravam explosões de cores que o homem explicava ser a forma do Anjo que vira.

“Como falei, eles não possuem aparência humana e não falam. Quando querem se comunicar, a gente ouve musica.”

Fiquei ouvindo, curioso e tentando raciocinar se o cara tinha tido alguma experiência mesmo, ou estava viajando na maionese, mas o que ele falava batia bem com aquilo que eu acreditava sobre os Anjos ou Devas*, esses seres que estão em nosso imaginário desde o principio da humanidade.

Ele falava da sua experiência, de uma maneira tão real, que realmente convencia até quem não acreditava em nada, e ele não parecia ser um desses vizinhos malucos, pelo contrario, ele parecia estar fora de lugar, literalmente falando de ouro a quem só entendia o que era chumbo.

“Ele, e vou chamá-lo de ele porque não sei se me refiro a este ser como ele ou ela, ficou na minha frente por algum tempo e eu sabia quem ele era, apesar de não ter a menor idéia do por quê aparecera para mim. Perguntei se ele era realmente um anjo e eu ouvi apenas música. Era como se eu sentisse que as ondas da melodia tocavam cada célula em meu corpo e aquela era a sua mensagem para mim.

Ele falava de amor através de ondas suaves de compaixão, que tocavam o meu corpo, enquanto eu olhava para ele e via explosões de luzes em dourado e vermelho.

Parecia que a própria luz que permeia o universo estava ali à minha frente.

Naquele momento, senti que esse amor que ele me enviava parecia também sair de dentro de mim e comecei a lembrar de todas as pessoas que me são queridas, até que me vi enviando amor até para os meus inimigos e pessoas que nem conhecia. Entendi, naquele momento, por que Deus não fala com a gente quando a gente pede.

Se estando à frente de um anjo você já sente isso, imagina se estivesse com o Criador cara-a-cara?

O que o Anjo me passou era amor demais para eu carregar comigo e desde a experiência eu tenho pintado esses quadros, escrito poesias e abraçado todo mundo, tentando compartilhar de alguma forma esse amor que o Anjo me passou, e que ainda sinto tão latente no meu peito.

Sim, meu amigo, um caminhão me atropelou e eu enlouqueci, mas foi o caminhão do amor, e eu estou louco de amor.”

Continuei ali escutando, fascinado por aquele homem que pintava anjos, quando o relógio tocou e precisei ir embora trabalhar. Deixando o parque para trás, meus pensamentos estavam com o louco de amor, e uma sensação muito boa foi tomando conta de mim e fiquei assim com esse sentimento por todo o dia.

O louco de Amor me contagiara, e se eu não estiver errado, foi por esse motivo que ele tinha ido parar naquele lugar onde todos falavam do que lhes davam na telha; ele não fora ali para falar de seres celestiais, e sim bancar ele mesmo o papel do Anjo, transmitindo, à sua maneira, amor para todos, que em busca de chumbo, levaram ouro pra casa

Londres, 10 de setembro de 2004.

- Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco,
participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores, que atualmente mora em Londres. Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos.

Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista on line de nosso site e em nossa seção de textos projetivos e espiritualistas, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br



- Nota do texto:

* Devas (do sânscrito): Divindades, Anjos, Seres Celestes.