ALMAS GÊMEAS - Parte 1

Eram redondos e as costas e os quadris formavam um círculo. Tinham quatro mãos, quatro pernas e uma cabeça com duas faces exatamente iguais. Eram capazes de andar eretos em todas as direções e podiam também rolar sobre os quatro braços e pernas, como se virassem estrelas, cobrindo grandes distâncias, velozes como raios. Sua forma devia-se ao fato de terem a porção masculina vinda do Sol e a porção feminina ser vinda da Terra.

Com tanta força e poder, tornaram-se ambiciosos e ousaram desafiar os deuses, escalando o Monte Olimpo, a morada dos imortais. O que fazer com eles, então?, discutiam os deuses reunidos no conselho celeste. Aniquilá-los? Mas e os sacrifícios, as homenagens, os templos e a adoração que vinham da Terra? Por outro lado, uma insolência dessas não poderia ser tolerada e precisava ser punida!

Depois de muito refletir, Zeus, o senhor supremo do Olimpo, descobre um meio de deixá-los mais fracos e ainda torná-los mais numerosos, sem destruí-los. Decide, assim, parti-los ao meio! E a cada um que partia, dava a Apolo, seu filho, deus da beleza, as duas partes para que as curasse, virando-lhes o rosto para o lado do corte, repuxando-lhes e amarrando-lhes a pele no que hoje chamamos de umbigo, para que, contemplando a própria mutilação, se lembrassem da lição.

E, desse modo, segundo a narrativa, desde que foram mutilados os andróginos, cada metade procura a sua outra metade para a ela se unir e, envolvendo-a e enlaçando-a, com ela se confundir e fundir, a ponto de nada mais poderem fazer uma sem a outra, na mais completa inércia.

Mas então as criaturas começaram a morrer, de fome e de desespero. Abraçavam-se e deixavam-se ficar. E diz Aristófanes que “sempre que morria uma das metades, a que ficava procurava outra e com ela se enlaçava, quer se encontrasse com a metade do todo que era mulher, quer com a de um homem...”

Com isso, a raça humana começou a se extinguir, pois os órgãos sexuais não haviam sido voltados para o mesmo lado do rosto, ficando para trás, fazendo com que as criaturas não copulassem entre si, mas no solo, como insetos, e, portanto, não se reproduzissem.

Zeus, então, penalizado, resolveu mexer novamente no seu lay-out e colocou seus órgãos reprodutores voltados para o lado que havia se tornado a sua parte da frente, para que, quando se abraçassem, as metades copulassem e, com isso, pudessem se reproduzir, dando continuidade à espécie e à vida da humanidade. Assim, com o tempo, eles esqueceriam o ocorrido e perceberiam apenas seu desejo. Um desejo que jamais seria saciado no ato sexual, porque, mesmo fundindo-se um ao outro por um instante, a alma saberia, ainda que não pudesse explicar, que não havia alcançado a verdadeira união e a saudade da união plena renasceria, nem bem a comunhão física tivesse se consumado.

Muito tempo se passou desde que Platão escreveu O Banquete e, ao longo desse tempo, algumas distorções parecem ter surgido no mito que se tornou conhecido como alma gêmea.

Deus, ou o que quer que chamemos de força criadora do universo, causa primária de todas as coisas, só é Deus se for perfeito, justo e amor incondicional. E se for tudo isso não pode criar nada pela metade, incompleto, faltando um pedaço. Todos nós, portanto, como criaturas divinas, somos seres inteiros, completos e perfeitos, no sentido de que nada nos falta e de que não precisamos encontrar uma outra metade ou pedaço para sermos felizes, inteiros e perfeitos.

Não somos incompletos, apenas não somos capazes de olhar para nós mesmos, temos medo de ficar sozinhos, não gostamos da nossa própria companhia e, assim, criamos uma sociedade que não aceita a idéia da solidão voluntária ou natural, uma sociedade que considera a solidão uma doença ou aberração. Com isso, também nos tornamos dependentes da idéia de que somos obrigados a encontrar uma pessoa com quem viver, a pessoa perfeita, ideal, que vai nos fazer felizes para sempre, a nossa alma gêmea.

Ser gêmeo de alguém, como vimos, é ser igual ou muito semelhante, ter muita afinidade, ser a duplicata. Só isso. Então, vejamos. Se eu gostar de espaguete, a minha alma gêmea também gostará e em nossa dispensa dificilmente haverá lasanha ou ravioli, porque nós dois gostamos de espaguete. E se eu gostar de blues, minha alma gêmea também gostará e em nossa coleção musical dificilmente haverá outros gêneros musicais, porque nós dois curtimos blues. E se eu for muito ciumenta? Ora, se minha alma gêmea for gêmea de verdade, também será muito ciumenta e nossa vida será um verdadeiro inferno. Acho que já deu para perceber onde quero chegar, não é? O que é que um está acrescentando ao outro? O que é que os dois estão trocando?

Para crescer como pessoas e espíritos temos de trocar. E troca só existe onde há diferença, pois onde tudo é igual, onde o que um oferece é exatamente igual ao que o outro oferece, o que há para trocar? E nessa situação, o que ambos estão ganhando? Talvez por isso, no mito de Platão, as criaturas inicialmente se abraçavam e morriam, já que não tinham nada para trocar. Até que Zeus melhorou o seu lay-out, permitindo que trocassem algo no ato sexual, ainda que isso não as satisfizesse espiritualmente.

(Continua no texto seguinte...)